A oficialização da responsabilidade do Estado brasileiro na morte de Carlos Marighella completa 30 anos, marco histórico que simbolizou o primeiro passo para a reparação da memória do ex-deputado e guerrilheiro assassinado durante a ditadura militar em São Paulo. O atestado de óbito emitido em 11 de setembro de 1996, com base na Lei 9.140, deu início ao reconhecimento dos crimes estatais pelo órgão oficial.

O advogado Carlos Augusto Marighella, hoje com 78 anos, soube do assassinato do pai em 1969 por meio de fotos de telex apresentadas por jornalistas. Por carregar o sobrenome, Carlinhos também sofreu perseguições, sendo expulso da escola e demitido da Petrobras durante o regime de exceção.

Atuação da comissão e desmistificação do crime

A criação da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos permitiu comprovar que o militante foi vítima de uma emboscada com fuzilamento, e não de um confronto armado. O jurista Miguel Reale Júnior, primeiro presidente do grupo, ressalta que o caso ajudou a responsabilizar formalmente o governo pelas execuções da época.

Publicidade
Publicidade

Leia Também:

A redefinição da certidão de óbito do guerrilheiro abriu caminho para a regularização de mais de 60 documentos de outras vítimas da repressão. De acordo com o ex-deputado Nilmário Miranda, o objetivo da legislação era assumir a culpa do Estado, sem foco em punições individuais imediatas.

Retificação histórica e reparação às famílias

Recentemente, a comissão atualizou os documentos para incluir detalhes antes omitidos. A presidente do órgão, Eugênia Gonzaga, destacou que o atestado de óbito retificado registrou formalmente o casamento de Marighella com a ativista Clara Charf, que viveu na clandestinidade e faleceu em 2025.

Para a família, o resgate da memória vai além dos trâmites burocráticos e precisa educar as novas gerações sobre a democracia. Em gesto recente de homenagem, a Universidade Federal da Bahia concedeu o diploma simbólico de engenheiro ao antigo estudante da Escola Politécnica.

Apesar de nunca ter recuperado o acervo intelectual do pai, confiscado pelos militares, Carlinhos ressalta o aprendizado com a postura firme do guerrilheiro. Ele mantém a intenção de criar um memorial para preservar a trajetória e a produção do líder político.

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista REG. PROF. FENAJ - 4407/PB | API/PB 3072