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Os consumidores brasileiros do setor elétrico estão arcando com uma despesa anual superior a R$ 7 bilhões em 2024 e 2025, um montante referente às chamadas “perdas não técnicas”. Estes custos, detalhados em audiência na Câmara dos Deputados nesta quarta-feira (17), são resultantes de furtos de energia, como as ligações clandestinas ("gatos") e desvios diretos da rede, além de fraudes em medidores que adulteram o consumo real.
A Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) reportou prejuízos totais de R$ 11,3 bilhões em 2025, dos quais R$ 7,8 bilhões foram incorporados às tarifas cobradas da população. Esses valores evidenciam o peso financeiro que recai sobre os usuários.
Em 2024, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) estimou as perdas em 40 TWh (terawatts/hora), o equivalente a 6,6% de toda a energia injetada no país. O custo total dessas perdas atingiu R$ 10,3 bilhões, distribuídos entre os consumidores (R$ 7,1 bilhões), as distribuidoras (R$ 3,3 bilhões) e o poder público (R$ 1 bilhão em tributos não recolhidos).
Como o rateio das perdas impacta a tarifa
Flávia Pederneiras, gerente de regulação econômica da Aneel, explicou na Comissão Externa da Agenda “Brasil Legal” que nem todo prejuízo é automaticamente repassado. A agência realiza um benchmarking entre as 51 distribuidoras, classificando-as pela complexidade de suas áreas de atuação para determinar o montante de perda técnica que pode ser incluído na tarifa.
O problema das perdas não técnicas é mais acentuado em algumas regiões, com destaque para o Norte (19,5% dos casos) e o Sudeste (6,6%). Conforme Flávia Pederneiras, uma concessionária do Amazonas e a Light, do Rio de Janeiro, lideram o ranking de maiores prejuízos repassados aos seus clientes.
“A tarifa da Amazonas Energia poderia ser praticamente 13% menor se não fosse o furto de energia elétrica. Isso significa que, a cada R$ 8 pagos pelo consumidor do Amazonas, R$ 1 é destinado a cobrir o furto”, exemplificou Pederneiras. Ela acrescentou que a tarifa residencial da Light poderia ser 9,1% mais barata sem o impacto desses desvios.
Onofre de Albuquerque Neto, assessor em regulação da Abradee, manifestou preocupação com o aumento dos furtos de cabos elétricos, que registraram 25 mil ocorrências em 2025, totalizando um prejuízo de R$ 97 milhões. Esses incidentes também causam acidentes e interrupções no fornecimento de energia. Há expectativa de que a Lei 15.181/25, que endureceu as penas para esse tipo de crime, comece a apresentar resultados positivos em 2026.
O "imposto invisível" e a espiral da morte
O Tribunal de Contas da União (TCU) fiscalizou esses custos em 2023 e 2024, identificando as “perdas não técnicas” como um “imposto invisível” pago pelos consumidores. André Carneiro, chefe da auditoria especializada em energia elétrica do TCU, apontou que fatores como a complexidade geográfica, o crescimento desordenado da rede e restrições operacionais em áreas dominadas pelo crime organizado contribuem para o problema.
“As perdas não técnicas reduzem o faturamento das distribuidoras, diminuindo a base pagante e forçando o aumento da tarifa para cobrir os custos fixos. Esse ciclo se repete, com novos furtos e evasão de consumidores, gerando o que o setor elétrico apelida de espiral da morte”, explicou Carneiro.
Rosimeire da Costa, presidente do Conselho Nacional de Consumidores de Energia Elétrica (Conacen), clamou por medidas urgentes. “Pessoas que ganham de dois a cinco salários mínimos estão sustentando toda essa cadeia, caindo na ‘espiral da morte’. É fundamental reformular a metodologia, pois estamos pagando demais por isso”, afirmou.
Busca por soluções e novas abordagens
O deputado Julio Lopes (PP-RJ), coordenador da comissão, enfatizou a necessidade de encontrar soluções para os bilhões de reais perdidos. “Precisamos avançar neste tema para fortalecer a legalidade no Brasil”, declarou.
Entre as propostas discutidas na audiência, destacam-se a redefinição das metas de perdas para concessionárias que atuam em regiões com altas restrições operacionais e a implementação de “tarifas inteligentes”, que poderiam oferecer valores diferenciados de acordo com a localização do imóvel.
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