Há momentos em que a própria narrativa política começa a revelar as preocupações de quem tenta construí-la. Na corrida pelo Governo da Paraíba, a insistência em projetar uma vitória de Lucas Ribeiro ainda no primeiro turno levanta uma pergunta inevitável nos Bastidores do Poder: se o cenário estivesse realmente definido, por que seria necessário repetir tanto essa tese?

O tabuleiro eleitoral paraibano passa por uma fase de reorganização. Cícero Lucena, que apareceu inicialmente em posição de vantagem, perdeu espaço, enquanto Efraim Filho avançou e passou a ocupar o segundo lugar em levantamentos recentes, a exemplo da pesquisa do Instituto AtlasIntel. O movimento concentra progressivamente a disputa entre Efraim e Lucas, alterando as projeções construídas no início da campanha.

Paralelamente, jornalistas, blogueiros e comunicadores identificados com a linha política do governo vêm defendendo, de maneira recorrente, a possibilidade de uma vitória de Lucas Ribeiro no primeiro turno. A narrativa ganhou força no discurso público, apesar de os números apresentados até agora não apontarem, de forma objetiva, para uma definição antecipada.

Publicidade
Publicidade

Leia Também:

A estratégia é conhecida nas campanhas eleitorais: transmitir ao eleitorado a percepção de que a disputa estaria praticamente encerrada. Esse tipo de comunicação pode influenciar principalmente os indecisos e aqueles que tendem a acompanhar o candidato apresentado como favorito, criando uma atmosfera de vitória antes mesmo da abertura das urnas.

Entretanto, o esforço para consolidar essa ideia também pode ser interpretado como sinal de preocupação. O maior risco para o grupo governista talvez não esteja propriamente na primeira etapa da eleição, mas na possibilidade de enfrentar uma oposição unificada no segundo turno.

Caso Efraim Filho confirme sua posição como principal adversário de Lucas Ribeiro, as candidaturas oposicionistas que hoje disputam o mesmo espaço poderiam convergir para um único projeto. Nesse cenário, a eleição deixaria de ser fragmentada e passaria a funcionar como um confronto direto entre governo e oposição.

Essa mudança alteraria profundamente o ambiente político. Lideranças atualmente divididas, grupos municipais sem alinhamento definido e eleitores que rejeitam a continuidade administrativa encontrariam um único endereço eleitoral. Também começaria uma nova campanha, com tempo igual na propaganda, maior exposição dos candidatos e confronto direto de propostas, alianças e resultados administrativos.

Efraim Filho não precisa vencer a disputa agora; precisa continuar crescendo até transformar o segundo turno em uma ameaça concreta ao projeto governista.

É justamente essa movimentação que começa a pressionar a estratégia de Lucas Ribeiro. Quanto mais Efraim se consolida como alternativa oposicionista, maior se torna o risco de concentração do voto contrário ao governo em uma eventual segunda rodada.

Na Política da Paraíba, pesquisas são fotografias de momentos específicos, e não sentenças definitivas. Ainda existe campanha pela frente, os índices podem oscilar e novas articulações municipais poderão interferir no comportamento do eleitorado. Mesmo assim, os números disponíveis não sustentam, neste momento, a ideia de uma eleição encerrada no primeiro turno.

A tentativa de vender uma vitória antecipada pode, portanto, produzir um efeito inverso: revelar que o Palácio da Redenção acompanha com atenção o crescimento da oposição. No centro desse cálculo está menos o desempenho imediato de Efraim e mais sua capacidade de chegar ao segundo turno como polo agregador dos grupos contrários à continuidade governista.

O fantasma que ronda o governo não é necessariamente uma derrota na primeira votação. É a possibilidade de uma nova eleição começar no dia seguinte, com a oposição reunida, o tempo de campanha dividido igualmente e toda a Paraíba chamada a escolher entre apenas dois projetos.

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista. REG. PROF. FENAJ - 4407/PB | API/PB 3072.