Por Wgleyson de Souza — Jornalista
Reg. Prof. FENAJ 4407/PB | API/PB 3072

O reajuste de 15,04% no valor mínimo do Bolsa Família, anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva a 17 dias do primeiro turno das eleições de 2026, colocou no centro do debate a fronteira entre política social, decisão econômica e estratégia eleitoral.

Durante o quadro Política e Poder, da TV Sertão, o jornalista Wgleyson de Souza analisou o momento escolhido para o anúncio, a situação jurídica da medida e o avanço de Flávio Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto.

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O novo piso do programa passará de R$ 600 para R$ 691. A previsão divulgada é de que os pagamentos comecem em 19 de outubro, entre o primeiro e o segundo turnos da eleição presidencial. O governo justifica o aumento pela inflação acumulada desde a reformulação do Bolsa Família, em março de 2023.

Os adicionais vinculados à composição familiar continuam existindo, incluindo os R$ 150 destinados a crianças de até seis anos. Esse valor complementar, portanto, não foi criado pelo novo anúncio.

A proximidade entre o calendário eleitoral e o início dos pagamentos abriu espaço para críticas da oposição, que classifica a medida como uma tentativa de melhorar o desempenho do presidente entre eleitores de baixa renda. Essa interpretação, porém, representa uma leitura política dos adversários e não comprova, isoladamente, a existência de irregularidade eleitoral.

Do ponto de vista jurídico, o artigo 73, parágrafo 10, da Lei nº 9.504/1997 proíbe, em regra, a distribuição gratuita de bens, valores ou benefícios pela administração pública no ano eleitoral. A própria legislação, entretanto, admite a continuidade de programas sociais autorizados em lei e já executados no exercício orçamentário anterior.

Não se trata simplesmente de uma “brecha”. A aplicação da exceção depende do cumprimento de requisitos legais, especialmente a existência anterior do programa, sua autorização normativa e a respectiva execução orçamentária. O Bolsa Família é uma política pública permanente e anterior ao ano eleitoral, circunstância que fortalece juridicamente a continuidade dos pagamentos.

Ainda assim, a existência dessa proteção não autoriza o uso promocional do programa em favor de candidatura, partido ou grupo político. Eventuais questionamentos precisariam demonstrar abuso, desvio de finalidade ou utilização eleitoral indevida, e não apenas a proximidade entre o reajuste e a votação.

Na avaliação apresentada por Wgleyson de Souza, esse cenário impõe um dilema à oposição. Uma contestação judicial sem elementos concretos dificilmente interromperia o benefício e ainda poderia produzir desgaste político, permitindo que o governo acusasse os adversários de tentar impedir um aumento destinado às famílias mais pobres.

O debate também encontra precedente recente. Em 2022, igualmente durante uma eleição presidencial, o então governo federal ampliou o valor do Auxílio Brasil e autorizou outros benefícios por meio de uma emenda constitucional. Embora os contextos fiscais e jurídicos apresentem diferenças, o episódio demonstra que a utilização política de programas de transferência de renda não é uma discussão exclusiva do atual governo.

O fator que amplia a repercussão do anúncio é o comportamento das pesquisas. A CNT/MDA mostrou Lula com 40,6% e Flávio Bolsonaro com 30,4% no primeiro turno. Em uma simulação de segundo turno, o presidente aparece com 47,3%, contra 40% do adversário.

A distância entre os dois caiu de nove pontos, na rodada anterior, para 7,3 pontos percentuais. O levantamento ouviu 2.002 pessoas, entre 9 e 13 de setembro, possui margem de erro de 2,2 pontos e está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-06902/2026.

Já a AtlasIntel/Bloomberg apresentou um cenário mais apertado. Lula marcou 44,1% no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro alcançou 41,7%. No segundo turno, o senador apareceu numericamente à frente, com 47,2%, diante de 46,8% do presidente. A diferença está dentro da margem de erro e configura empate técnico.

Os levantamentos utilizam metodologias, amostras e formas de coleta diferentes. Por isso, os resultados não devem ser tratados como previsões definitivas nem comparados sem observar essas distinções. Ainda assim, ambos sinalizam crescimento da competitividade de Flávio Bolsonaro e aumento da pressão sobre a campanha governista.

O reajuste pode possuir justificativa social e respaldo jurídico, mas seu anúncio às vésperas da eleição produz um efeito político impossível de ser ignorado.

A questão central não é negar a necessidade de atualização do benefício diante da inflação. O ponto crítico está no calendário adotado, na comunicação governamental e na coincidência entre o início do pagamento e a fase decisiva da eleição.

Não há elementos suficientes, apenas com as informações disponíveis, para afirmar que o reajuste constitui uma ilegalidade. Politicamente, contudo, a medida alcança Lula no momento em que pesquisas indicam redução de sua vantagem e aproximação do principal adversário.

No tabuleiro eleitoral, política social e cálculo político frequentemente caminham lado a lado. Caberá aos órgãos de fiscalização observar o cumprimento da legislação e ao eleitor avaliar se o anúncio representa exclusivamente uma recomposição necessária ou também uma resposta estratégica ao avanço da oposição.

Fontes consultadas: Lei Eleitoral e jurisprudência do TSE, pesquisa CNT/MDA, levantamentos presidenciais de setembro e anúncio do reajuste.

FONTE/CRÉDITOS: Wgleyson de Souza — Jornalista Reg. Prof. FENAJ 4407/PB | API/PB 3072