A candidatura de Zé Aldemir à Assembleia Legislativa da Paraíba é apresentada por ele como o encerramento de um ciclo. Depois de seis mandatos como deputado estadual, um como deputado federal e dois como prefeito de Cajazeiras, o médico e ex-gestor busca alcançar o décimo mandato eletivo de uma trajetória iniciada há mais de quatro décadas.

O discurso mistura legado, experiência e despedida. Ao afirmar que esta será sua última eleição para o Parlamento estadual, Zé Aldemir tenta transformar os 43 anos de vida pública em um argumento eleitoral: pede ao sertanejo não apenas confiança nas propostas anunciadas, mas uma espécie de reconhecimento pelo caminho percorrido.

A experiência, contudo, não elimina as contradições. Pelo contrário: quanto maior a trajetória, maior também é a quantidade de decisões, alianças e mudanças de posicionamento submetidas ao julgamento público.

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Em 2024, o grupo de Zé Aldemir enfrentou em Cajazeiras uma campanha marcada pela participação direta do então governador João Azevêdo na defesa da candidatura adversária. Agora, o cenário é outro. O ex-prefeito apoia a chapa governista liderada por Lucas Ribeiro para o Governo da Paraíba e por João Azevêdo para o Senado.

A aproximação não surgiu por acaso. Em dezembro de 2025, Zé Aldemir rompeu politicamente com Veneziano Vital do Rêgo e anunciou apoio ao projeto de João Azevêdo, em uma articulação atribuída ao deputado federal Aguinaldo Ribeiro. Em abril de 2026, João deixou o governo para disputar o Senado, e Lucas Ribeiro assumiu o comando do Estado. 

Para explicar a convivência com antigos adversários, Zé Aldemir recorre a uma narrativa conciliadora, afirmando não guardar ódio no coração. A mensagem procura encerrar publicamente as disputas recentes e abrir espaço para uma composição eleitoral mais ampla.

Esse movimento pode ser compreendido como pragmatismo político, algo comum na formação de palanques. Mas também revela como divergências apresentadas como profundas em uma eleição municipal podem ser relativizadas quando uma nova disputa exige outros aliados. O eleitor tem o direito de avaliar se houve uma reconciliação programática ou apenas uma acomodação circunstancial de interesses.

A despedida eleitoral anunciada por Zé Aldemir não acontece fora das velhas engrenagens do poder, mas dentro delas, com alianças recompostas, projetos dependentes de articulação e uma representação familiar que resiste ao discurso de renovação.

A saúde continua sendo o eixo central de sua plataforma. Médico por formação, Zé Aldemir apresenta essa área como missão pessoal e política. Entre as bandeiras mencionadas estão o Hospital da Criança, um Centro Especializado em Reabilitação de porte C4 para atender pessoas com deficiência e famílias atípicas, a UPA da Zona Norte e a implantação de serviços de hemodinâmica.

São propostas de forte apelo social, especialmente em uma região que ainda depende do deslocamento de pacientes para serviços especializados. Entretanto, a entrevista também evidencia que a concretização desses projetos não depende exclusivamente da vontade do candidato.

O Hospital da Criança, por exemplo, está associado a recursos articulados pela deputada Dra. Paula e pela senadora Daniella Ribeiro. Registros divulgados anteriormente apontam a garantia de R$ 6 milhões para a construção da unidade. Já outras demandas exigem emendas parlamentares, decisões administrativas e participação direta do Governo do Estado. Prefeitura de Cajazeiras.

Essa dependência não invalida os projetos, porque obras estruturantes de saúde normalmente exigem cooperação entre diferentes esferas de governo. O ponto político está na distância entre defender uma proposta e reunir condições orçamentárias, técnicas e institucionais para entregá-la.

A contradição mais simbólica surgiu quando Zé Aldemir relatou a frustração de ter participado da implantação do Centro de Diagnóstico por Imagem de Cajazeiras e, atualmente, não possuir sequer autoridade para viabilizar um exame de raio-X para um paciente. A declaração pode ser interpretada como crítica à atual condução administrativa, mas também revela os limites do poder pessoal depois do encerramento de um mandato.

Na prática, equipamentos públicos não podem funcionar com base na autorização informal de lideranças políticas. O acesso precisa obedecer a critérios médicos, protocolos e regulação. O desabafo possui força política, mas também abre um debate necessário: até que ponto a população ainda associa direitos públicos à intermediação de agentes políticos?

Outro ponto sensível envolve o assessor ligado a Zé Aldemir que teria sido flagrado filmando comunicadores responsáveis por denúncias contra a administração municipal. Segundo a versão apresentada pelo candidato, o funcionário agiu sem sua autorização e o episódio também o teria surpreendido.

A explicação afasta uma ordem direta, mas não elimina o desgaste. Quando um integrante da equipe de uma liderança política acompanha ou registra críticos de uma gestão aliada, a interpretação de fogo amigo torna-se praticamente inevitável. Isso ganha ainda mais relevância porque o próprio Zé Aldemir classificou como graves as denúncias direcionadas à administração de Cajazeiras.

Sem elementos adicionais, não é possível atribuir ao ex-prefeito a autoria ou o comando da iniciativa. Ainda assim, cabe ao grupo esclarecer qual era a finalidade da gravação e se houve alguma providência interna após o episódio. O contraditório, nesse caso, não deve servir apenas como defesa: precisa produzir explicações verificáveis.

A defesa de um tomógrafo para o Hospital Municipal de São José de Piranhas também entrou no debate eleitoral. Zé Aldemir assumiu publicamente o compromisso de levar a demanda ao Governo do Estado, argumentando que o equipamento ajudaria a fortalecer o atendimento regional e reduzir deslocamentos para Cajazeiras. 

Adversários podem classificar a proposta como eleitoreira, mas essa avaliação pertence ao confronto político e não pode ser apresentada como fato comprovado. A análise mais objetiva exige verificar se existe estudo de demanda, estrutura hospitalar, equipe especializada, previsão de custeio e articulação orçamentária. Sem essas respostas, o tomógrafo permanece como compromisso de campanha, não como entrega assegurada.

A candidatura também passa por uma reorganização familiar. Dra. Paula decidiu não disputar a reeleição e passou a apoiar o retorno do marido à Assembleia. A escolha concentra novamente no mesmo núcleo familiar a tentativa de preservar uma cadeira parlamentar vinculada a Cajazeiras.

A decisão é legítima do ponto de vista eleitoral, mas provoca uma discussão sobre renovação política. Não se trata de negar a experiência de Zé Aldemir nem a autonomia de Dra. Paula. O questionamento é se a representação regional continuará circulando entre os mesmos nomes e famílias ou se haverá espaço real para o surgimento de novas lideranças.

A campanha tenta converter longevidade em confiança. Os adversários, por sua vez, poderão transformar essa mesma longevidade em argumento pela renovação. É justamente nessa tensão que se encontra o ponto central da candidatura: Zé Aldemir não disputa apenas uma vaga na Assembleia, mas o significado político de sua própria história.

Ao pedir um décimo mandato, ele apresenta experiência, articulação e serviços prestados. Em contrapartida, terá de explicar mudanças de palanque, demonstrar a viabilidade de suas promessas, administrar os ruídos dentro do grupo e responder por que sua permanência representa uma necessidade regional, e não somente a continuidade de um projeto familiar.

A eleição decidirá se o eleitorado enxerga essa candidatura como reconhecimento por uma trajetória ou como resistência à renovação. Entre a despedida anunciada e o desejo de permanecer no centro do poder, Zé Aldemir entra na disputa carregando o peso — e também as contradições — de 43 anos de vida pública

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista. REG. PROF. FENAJ 4407/PB | API/PB 3072