Vinte anos após os brutais Crimes de Maio de 2006, Débora Maria da Silva, fundadora do movimento Mães de Maio, segue clamando por justiça diante da persistente impunidade. Naquele ano, em 15 de maio, seu primogênito, Edson Rogério Silva dos Santos, um gari de 29 anos, foi assassinado na Baixada Santista, São Paulo, tornando-se uma das centenas de vítimas da violência do Estado que marcou o período.

O estado de São Paulo vivenciava, há duas décadas, um dos capítulos mais sombrios de sua história. Entre 12 e 21 de maio de 2006, ataques orquestrados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) desencadearam uma violenta resposta de agentes policiais e grupos de extermínio. Esses eventos, que culminaram na morte de mais de 500 pessoas, ficaram tristemente conhecidos como Crimes de Maio.

Edson Rogério, assim como a maioria das vítimas – jovens, negros e moradores da periferia – foi ceifado durante essa onda de confrontos e retaliações. Sua morte simboliza a vulnerabilidade de uma parcela da população diante da escalada da violência do Estado.

Publicidade
Publicidade

Leia Também:

Débora recorda com melancolia que não costumava celebrar o próprio aniversário, preferindo focar no Dia das Mães. Em 2006, seu aniversário, 10 de maio, coincidiu com uma cirurgia de siso de Edson Rogério, um detalhe que se entrelaça com a memória da última celebração.

O domingo seguinte, 14 de maio, foi marcado por um bolo e um churrasco em família, a última vez que Edson Rogério cantou "parabéns" para a mãe. "Ele me deu um beijo e foi embora. Depois eu só vi ele dentro do caixão", relata Débora, com a voz embargada pela lembrança da despedida final.

A tragédia se abateu no dia seguinte à celebração. Edson Rogério, após parar para abastecer sua motocicleta em um posto de gasolina, foi abordado por policiais. Um rapaz que tentava ajudá-lo com a gasolina, testemunhou a cena: "Quando eu cheguei no posto, tinha duas viaturas abordando ele e eu fiquei de longe esperando a abordagem", narrou à Débora durante o velório.

O relato do rapaz prossegue, descrevendo como, após a abordagem, os policiais se afastaram do posto e aguardaram Edson Rogério no alto do morro. "Mataram o meu filho encostado num muro e ele caiu sobre umas pedras, umas pedras de contenção", descreve a mãe, detalhando a brutalidade da execução.

Com cinco tiros – um em cada pulmão, um no coração e dois nos glúteos – Edson Rogério teve morte instantânea naquela segunda-feira pós-Dia das Mães. "Esses cinco tiros que eles deram no meu filho eu senti todos. Mas do coração eu senti mais, sinto até hoje, ele dói. Foi o fatal", desabafa Débora, expressando a profunda dor que a acompanha desde então.

Duas décadas se passaram, e o aniversário de Débora, em 2024, novamente coincide com o Dia das Mães. Contudo, para ela, essas datas perderam o sentido festivo, transformadas em lembretes dolorosos de sua perda irreparável.

"Não tem mais o que comemorar. Isso o Estado levou de mim perversamente", afirma Débora. "Eu não perdi só o Rogério. Eu perdi minha família", conclui, ressaltando o impacto devastador da violência do Estado que lhe roubou não apenas um filho, mas a alegria de celebrar.

A memória viva e a luta contra a prescrição

Em 2024, Débora revive intensamente a dor de duas décadas. A organização de um acervo fotográfico para a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e as inúmeras entrevistas a fazem confrontar novamente o luto. "Estou muito deprimida porque este ano completam-se 20 anos e pode prescrever o crime do meu filho", desabafa, expressando a angústia de ver a justiça se esvair enquanto tenta preservar sua saúde mental.

Em resposta à tragédia, Débora foi uma das fundadoras do movimento Mães de Maio, uma rede de apoio e luta composta por mães, familiares e amigos de vítimas da violência do Estado. O coletivo tornou-se uma referência essencial na busca incansável por justiça, memória e no combate efetivo à violência estatal.

"Maio de 2006 é uma história que nós contamos como mães porque nossos filhos morreram como suspeitos", explica Débora. Ela enfatiza que a dor das Mães de Maio não conhece fronteiras, acolhendo até mesmo mães de policiais, demonstrando que o sofrimento diante da perda é universal e transcende qualquer divisão.

Apesar do tempo, a luta por justiça permanece inabalável. Recentemente, o movimento Mães de Maio e a organização Conectas Direitos Humanos uniram forças para enviar um apelo urgente à Organização das Nações Unidas (ONU), denunciando a omissão do Estado brasileiro na elucidação dos Crimes de Maio.

O documento enviado à ONU destaca a grave falha do Brasil: "Nenhuma dessas execuções foi devidamente esclarecida, nenhum agente do Estado foi responsabilizado e tampouco as famílias das vítimas receberam reparação adequada", afirmam as entidades, sublinhando a completa ausência de justiça e reparação.

Para Débora, a morte de Edson Rogério e de tantos outros foi resultado direto da violência do Estado, manifestada não apenas pela execução, mas também pela omissão. "Não foram os faccionados que mataram nossos filhos. Foi o crime organizado, que é o terrorismo do Estado", declara. Ela argumenta que seus filhos "pagaram por uma guerra que não era deles", e que a impunidade é a segunda morte imposta às mães.

A mãe e as demais vítimas da violência policial reforçam que essas mortes não podem ser esquecidas nem permanecer impunes, sob o risco de perpetuar um ciclo vicioso de violência e injustiça no país.

"A gente não pode naturalizar essas mortes – e principalmente de morte cometida pela polícia", adverte Débora. Ela aponta que o "massacre de maio é um massacre continuado", com o mesmo modus operandi se repetindo. O movimento Mães de Maio busca humanizar as vítimas, mostrando que "nossos filhos têm nome, sobrenome e residência fixa", combatendo a estigmatização de "suspeitos".

Débora lamenta a continuidade desses crimes e a necessidade de acolher e encorajar outras mães em todo o Brasil. Ela as motiva a denunciar a violência policial e a afirmar que a vida de seus filhos importa, mesmo após a morte, desafiando o medo e a cultura do silêncio.

Duas décadas após o massacre, as mães persistem em sua jornada, almejando um Brasil onde a memória seja honrada, a justiça prevaleça e a violência seja erradicada.

"Nós queremos continuar vivas para poder parir um novo Brasil ou uma nova sociedade, porque nós parimos seres humanos. Nós não parimos suspeito. O suspeito quem nos rotula é o crime organizado, que é esse Estado muito aparelhado. E isso vem desde o tempo da ditadura.", declara Débora, sublinhando a luta por uma sociedade mais justa.

A trajetória de Débora e de outras mães que perderam seus filhos nos Crimes de Maio será tema do programa "Caminhos da Reportagem". O episódio especial, intitulado "Crimes de Maio, 20 anos sem Respostas", será transmitido nesta segunda-feira (11), às 23h, pela TV Brasil.

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista REG. PROF. FENAJ - 4407/PB | API/PB 3072