O xadrez da Política da Paraíba ganha contornos de alta tensão no município de Santa Helena, onde a relação entre o Poder Legislativo e o Executivo atingiu um ponto crítico de ruptura institucional. Durante a 4ª sessão ordinária de 2026, os Bastidores do Poder revelaram uma oposição articulada, munida de dados técnicos e disposta a utilizar as prerrogativas constitucionais de controle externo para encurralar a gestão do prefeito João Cléber. O cenário desenhado no plenário aponta para graves questionamentos sobre a responsabilidade fiscal, transparência e a alocação de recursos públicos em uma cidade de pequeno porte.

O primeiro grande revés para o Executivo materializou-se no requerimento de instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), subscrito por quatro parlamentares: Breno Rolim, Valdivan Abrantes, João Pedro e Raimundo Lourenço. O alvo da investigação é a possível realização de um procedimento licitatório para aquisição de equipamentos destinados a Unidades Básicas de Saúde, no valor de aproximadamente R$ 199.954,00, supostamente sem a prévia e necessária dotação orçamentária. A gravidade do fato se acentua pela constatação de que o Executivo enviou posteriormente à Câmara um projeto solicitando a abertura de crédito especial exatamente neste valor, o que, na visão dos parlamentares, comprova a assunção de despesa sem autorização legislativa prévia — uma conduta que fere frontalmente a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Paralelamente à CPI, o debate sobre os gastos do Executivo expôs o que vem sendo classificado como uma verdadeira "farra das diárias". O vereador Valdivan Abrantes trouxe a público números alarmantes: o município de Santa Helena teria gasto cerca de R$ 490.450,00 apenas em diárias durante o ano de 2025. O parlamentar contrastou esse volume com o de cidades vizinhas, como Triunfo (R$ 132.920,00), evidenciando a desproporcionalidade para um município de apenas 6.000 habitantes. Além disso, desmentiu publicamente um vídeo do prefeito, apontando que, segundo o sistema Sagres, os gastos pessoais do gestor com diárias chegaram a R$ 42.500,00, e não R$ 34.000,00 como alegado na peça de defesa.

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O custo social desse descompasso financeiro foi didaticamente explorado pelo vereador Rogério Leite, que traçou um paralelo entre o montante gasto em viagens e as urgências negligenciadas da população. Segundo o parlamentar, o quase meio milhão de reais consumido em diárias poderia ter solucionado crises históricas de saneamento básico, como a situação degradante da Rua Joaquim Alves, ou ainda socorrido os agropecuaristas que sofreram perdas severas com a escassez de água. Leite relembrou ainda a contradição de uma gestão que onera os cofres com viagens, mas que, no ano anterior, enviou projeto para diminuir os salários de cuidadores do município.

*A escalada das denúncias atinge seu ápice com a formalização de um pedido de processo político-administrativo que pode culminar na cassação do mandato do prefeito João Cléber.* O documento, embasado no Decreto-Lei nº 201/1967 e na Lei Orgânica Municipal, acusa o gestor de descumprimento deliberado e omissão injustificada, ao ignorar o prazo legal de 15 dias para responder aos requerimentos da Câmara sobre o detalhamento justamente das diárias pagas em 2025. O Executivo levou 85 dias para esboçar um retorno, configurando, segundo os parlamentares, uma obstrução direta à função fiscalizatória do Legislativo. 

A leitura estratégica deste cenário, sob a ótica da coluna de Wgleysson de Souza, indica que o prefeito João Cléber comete um erro primário de articulação política ao tentar desqualificar a oposição por meio de vídeos nas redes sociais, classificando a fiscalização como "ataque". Diante de dados concretos do Tribunal de Contas e de infrações regimentais documentadas, a resposta do Executivo exige mais do que retórica digital; exige comprovação técnica. O Legislativo de Santa Helena demonstra maturidade ao abandonar o mero embate discursivo para adotar a via documental, colocando a gestão municipal sob um cerco jurídico do qual dificilmente sairá sem arranhões profundos em sua credibilidade.