Quando a dor entra na sua casa, a política deixa de ser discurso e passa a ser revolta.

Passei anos denunciando problemas na saúde pública. Gravei reportagens, ouvi mães chorando, acompanhei famílias desesperadas e, muitas vezes, critiquei cenas em que pessoas revoltadas quebravam portas, cadeiras e equipamentos dentro de hospitais.

Confesso que, em alguns momentos, pensei que aquelas reações fossem exageradas.

Até viver isso na minha própria família.

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Meu filho apresentou um quadro de inchaço no pênis, com suspeita de fimose. Procuramos atendimento na UPA de Cajazeiras. Foi medicado, recebeu Ibuprofeno e voltou para casa com a orientação de retornar caso o quadro não melhorasse.

Não melhorou.

Voltamos novamente à unidade. Uma médica avaliou a criança e, diante da situação, chamou outra profissional. A suspeita clínica foi confirmada e veio a informação de que seria necessária uma avaliação por um cirurgião no Hospital Regional de Cajazeiras.

Era tudo o que eu esperava.

Não uma cirurgia.

Não um procedimento complexo.

Apenas uma avaliação.

Foi então que, por volta das duas horas da madrugada, recebi a notícia que nenhum pai gostaria de ouvir.

Não havia cirurgião disponível.

Meu filho teria que ser transferido para Patos.

Uma criança colocada dentro de uma ambulância durante a madrugada para percorrer dezenas de quilômetros apenas porque Cajazeiras não dispõe de um profissional capaz de realizar uma avaliação básica.

Faço questão de registrar que minha crítica não é dirigida aos profissionais que me atenderam. Pelo contrário.

Agradeço ao médico Dr. Pablo, que nos recebeu durante a madrugada, bem como aos demais profissionais que fizeram tudo o que estava ao alcance deles.

O problema não são os médicos.

O problema é um sistema que falha justamente onde não poderia falhar.

Cajazeiras é um dos maiores polos de saúde do Sertão. Possui um Hospital Regional que atende cerca de quinze municípios. Recebe investimentos, amplia estruturas e é constantemente apresentado como referência.

Mas de que adianta um prédio imponente se falta o básico?

Não estamos falando de uma cirurgia de alta complexidade.

Estamos falando de um cirurgião para avaliar uma criança.

Enquanto isso, políticos continuam fazendo discursos, gravando vídeos, inaugurando obras e prometendo uma saúde cada vez melhor.

A realidade, porém, é outra.

Quem sente essa realidade não são os políticos.

São os pais.

São as mães.

São as crianças.

Essa experiência também trouxe de volta uma dor que jamais saiu da minha memória. Eu já perdi duas filhas e conheço o peso que a deficiência da estrutura de saúde pode causar a uma família.

Talvez por isso minha indignação seja ainda maior.

Hoje compreendi, como nunca antes, o desespero de tantos pais que vemos nos noticiários explodindo de revolta dentro de hospitais.

Não estou justificando qualquer ato de vandalismo.

Estou dizendo que a dor muda completamente a forma como enxergamos o sofrimento do outro.

Chegou a hora de abandonar discursos prontos.

Chegou a hora de investir menos em propaganda e mais em profissionais.

Porque hospital não se mede pelo tamanho da fachada.

Se mede pela capacidade de salvar vidas quando elas mais precisam.

Essa não é apenas uma denúncia. É o retrato da vergonha que uma cidade do porte de Cajazeiras impõe às famílias quando obriga uma criança a viajar de madrugada em busca de um atendimento que deveria existir dentro de casa.

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista. REG. PROF. FENAJ - 4407/PB | API/PB 3072