A Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara dos Deputados deu sinal verde, na última segunda-feira (15), a uma proposta que oficializa a responsabilidade estatal pelos desaparecimentos forçados na Chacina de Acari. O episódio, ocorrido no Rio de Janeiro em 1990, terá agora medidas formais de reparação financeira e ações para preservar a memória das vítimas.

Conforme informações divulgadas pela Agência Câmara de Notícias, o texto legislativo estabelece indenizações e homenagens póstumas. A iniciativa busca encerrar um ciclo de décadas de impunidade e falta de reconhecimento oficial sobre o crime.

O massacre aconteceu em julho de 1990, quando 11 indivíduos, em sua maioria jovens residentes da comunidade de Acari, foram levados por homens mascarados. O sequestro culminou em assassinatos em um sítio localizado em Magé, na Baixada Fluminense.

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As apurações do caso indicaram que os executores faziam parte de um grupo de extermínio composto por policiais militares. Até hoje, os restos mortais das vítimas não foram localizados, mantendo a ferida dos desaparecimentos aberta.

Ana Maria da Silva Braga, mãe de Antônio Carlos da Silva, acompanhou a leitura da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos que condenou o Brasil pelo caso. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Homenagem às heroínas da pátria

O projeto aprovado também determina que o movimento "Mães de Acari" seja incluído no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. O registro fica no Panteão da Pátria, em Brasília, honrando a luta histórica dessas mulheres.

Lideranças como Edméia da Silva Euzébio, Vera Lúcia Flores Leite e Marilene Lima de Souza encabeçaram o grupo. Elas enfrentaram graves riscos e preconceitos na busca incessante pelo paradeiro de seus filhos desaparecidos.

O reconhecimento do grupo ultrapassou fronteiras, recebendo apoio da Anistia Internacional e de figuras como Danielle Miterrand. O coletivo se consolidou como um dos maiores símbolos nacionais de resistência e busca por justiça.

Entre as vítimas do crime estão jovens com idades entre 13 e 32 anos, incluindo nomes como Hudson de Oliveira Silva, Viviane Rocha da Silva e Luiz Carlos Vasconcelos de Deus, cujas famílias aguardam reparação.

Pensão vitalícia de um salário mínimo

A medida prevê que os parentes das 11 vítimas recebam uma pensão especial mensal e vitalícia de um salário mínimo (atualmente R$ 1.621). O benefício é intransferível e será custeado pela União.

O pagamento será viabilizado por meio do orçamento destinado a Indenizações e Pensões Especiais de Responsabilidade da União. Essa verba atende vítimas de violência institucional e perseguições políticas.

A comissão estabeleceu uma ordem de prioridade para o recebimento do auxílio. As mães e ascendentes têm preferência, seguidos pelos descendentes diretos e, por último, os irmãos das vítimas.

Ajustes no texto substitutivo

O relator do caso, deputado Reimont (PT-RJ), apresentou um substitutivo ao Projeto de Lei 1969/22, da deputada Talíria Petrone (Psol-RJ). A nova versão mantém a essência da proposta, mas realiza adequações técnicas à legislação.

Uma das novidades é a criação do Dia Nacional das Vítimas de Desaparecimentos Forçados. A data será celebrada anualmente em 26 de julho, marcando o dia em que o grupo foi sequestrado em 1990.

Para o relator, a medida é parte fundamental de um esforço jurídico e simbólico para oferecer um desfecho digno aos familiares. Ele ressalta que a proteção dos direitos humanos deve ser garantida, mesmo com o atraso histórico.

Reimont enfatizou que o projeto converge com a condenação do Brasil pela Corte Interamericana de Direitos Humanos em 2024. Além disso, complementa leis estaduais do Rio de Janeiro que já previam indenizações.

Atualmente, a proposta tramita em caráter conclusivo e segue para análise da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania. Para se tornar lei, o texto ainda precisa passar pelos plenários da Câmara e do Senado.

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista REG. PROF. FENAJ - 4407/PB | API/PB 3072