A doença falciforme, condição genética e hereditária, manifesta-se de forma mais complexa do que a simples anemia, com a qual é frequentemente associada. Especialistas destacam que a enfermidade sistêmica afeta todos os órgãos, impactando a vida de cerca de 100 mil brasileiros, conforme estimativas do Ministério da Saúde. Entender a doença falciforme é crucial para combater mitos e melhorar o cuidado.

Conforme explicado pela hematologista Marimília Pita, a anemia é apenas um dos sintomas da doença falciforme, que é inerentemente genética e transmitida de pais para filhos. A condição é caracterizada por uma alteração nas hemácias, ou glóbulos vermelhos, que perdem seu formato flexível e assumem uma configuração alongada, semelhante a uma foice.

Hemácias em formato de foice e suas consequências

Essa alteração morfológica nas hemácias, que dá nome à doença (falciforme significa em forma de foice), compromete sua longevidade e funcionalidade. Enquanto hemácias normais sobrevivem cerca de 120 dias, as células falciformes têm uma vida útil drasticamente reduzida, de 20 a 80 dias, resultando em anemia crônica.

Publicidade
Publicidade

Leia Também:

Adicionalmente, a rigidez dessas hemácias falciformes dificulta a circulação, levando à obstrução de vasos sanguíneos. Esse bloqueio impede o transporte adequado de oxigênio para os tecidos, causando microinfartos que podem afetar diversos órgãos, como coração e olhos, e comprometer progressivamente suas funções ao longo da vida do indivíduo.

Diagnóstico precoce através do Teste do Pezinho

O diagnóstico da doença falciforme pode ser realizado precocemente através do Teste do Pezinho, um exame obrigatório e gratuito para recém-nascidos. A inclusão da pesquisa de hemoglobina nesse teste, há 25 anos, pelo Ministério da Saúde, tem sido fundamental para um acompanhamento mais eficaz.

O diagnóstico ainda na maternidade permite intervenções preventivas, especialmente contra infecções, que representam uma das principais causas de mortalidade em crianças com a doença antes dos 7 anos. Embora a cura seja rara, o tratamento médico contínuo pode atenuar os sintomas e melhorar a qualidade de vida, com o transplante de medula óssea sendo uma opção curativa em casos selecionados.

Crises de dor intensa e o manejo no sistema de saúde

As crises de dor intensa são um dos sintomas mais debilitantes da doença falciforme, resultantes da obstrução dos vasos sanguíneos pelas hemácias falciformes. Essas dores, frequentemente localizadas em ossos e articulações, podem acometer qualquer parte do corpo, manifestando-se em crianças pequenas com inchaço e vermelhidão nas mãos e pés.

A intensidade dessas crises pode necessitar de internação em unidades de terapia intensiva (UTI) para administração de analgésicos potentes, como a morfina. Lamentavelmente, há uma disparidade significativa no manejo da dor entre o Brasil e outros países, com menor acesso à morfina para pacientes brasileiros durante crises agudas, o que agrava o sofrimento e pode levar a estigmas.

O impacto do racismo estrutural na doença falciforme

A hematologista Marimília Pita ressalta que o racismo estrutural é um desafio adicional para pacientes com doença falciforme, uma vez que a condição é mais prevalente na população negra. A mutação genética associada à doença teria se originado na África, e no Brasil, a doença falciforme frequentemente se cruza com questões socioeconômicas e raciais.

É importante frisar que a doença falciforme não se restringe ao continente africano nem à população negra, ocorrendo em diversas partes do mundo e em populações miscigenadas como a brasileira. A conscientização e o combate ao preconceito são essenciais para garantir o acesso equitativo a diagnóstico e tratamento.

Histórias de superação e a importância do diagnóstico

Casos como o de Nilceia Alves Gomes da Silva, mãe de Agner Eduardo, e Lucas Henrique Gama Nascimento, paciente e escritor, ilustram a jornada de indivíduos que convivem com a doença falciforme. Suas experiências destacam a importância do diagnóstico precoce, do apoio familiar e da busca por direitos para uma vida plena.

Apesar das limitações impostas pela doença, como internações frequentes e sequelas físicas, esses pacientes demonstram resiliência, alcançando formação acadêmica, construindo carreiras e compartilhando suas vivências. A história de Lucas, que superou uma necrose no fêmur e publicou um livro sobre inteligência emocional, é um testemunho de força e adaptação.

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista REG. PROF. FENAJ - 4407/PB | API/PB 3072