Um amplo estudo conduzido por pesquisadores do Hospital Israelita Albert Einstein traçou o mapa das hepatites virais no Brasil, compilando dados de mais de 14,5 milhões de pessoas publicados entre 2013 e 2024. A pesquisa, divulgada na revista científica PLOS ONE nesta primeira semana de junho, visa subsidiar ações públicas para apoiar o país no objetivo de eliminar a infecção como problema de saúde pública até 2030.

A iniciativa integra o projeto Caracterização de Hepatites Virais em Populações Vulnerabilizadas, viabilizado por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS).

O trabalho avaliou dados de todos os tipos de vírus causadores da enfermidade no país: A, B, C, D e E.

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Segundo o médico João Renato Rebello Pinho, coordenador da investigação e especialista do Departamento de Patologia Clínica do Einstein, os tipos B e C costumam receber mais atenção da sociedade por serem recorrentes e evoluírem com frequência para quadros crônicos.

Hepatite A e as novas formas de contágio

Embora classificada como uma infecção aguda e evitável por vacina, a hepatite A registrou mudanças em seu padrão epidemiológico. Historicamente associada à transmissão oral-fecal por água ou alimentos contaminados — com alta incidência no Norte e Nordeste —, a doença teve ressurgimento nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

O infectologista explica que a dinâmica recente envolve a transmissão por contato oral-anal durante relações sexuais sem proteção. O fenômeno, inicialmente observado entre homens que fazem sexo com homens, espalhou-se para a população adulta não imunizada, já que a vacina não é distribuída gratuitamente pelo SUS para maiores de 18 anos fora dos grupos de risco.

Por outro lado, Pinho afasta temores sobre contágio interpessoal por contato superficial na rotina diária. A transmissão exige contato íntimo ou consumo de itens contaminados, não ocorrendo no transporte público ou em interações casuais de rua.

Hepatites B e C: riscos crônicos e avanços terapêuticos

Já as hepatites B e C são transmitidas principalmente pela via sexual e pelo contato com sangue infectado, como no compartilhamento de seringas. A transmissão vertical (de mãe para filho durante a gestação ou parto) atinge níveis baixos no Brasil graças ao controle pré-natal eficaz.

Ambos os tipos estão diretamente correlacionados ao desenvolvimento de cirrose e câncer hepático. Para a hepatite B, há imunizante eficaz e tratamentos para controle. Já a hepatite C não possui vacina, contudo dispõe de tratamentos modernos capazes de curar mais de 95% dos pacientes infectados.

Medidas preventivas fundamentais para conter o tipo C incluem a prática de sexo seguro e o não compartilhamento de materiais perfurocortantes.

Hepatite D: um desafio negligenciado na Amazônia

Considerada uma condição negligenciada, a hepatite D (ou Delta) afeta prioritariamente populações de menor renda e comunidades ribeirinhas na região amazônica, onde o acesso aos diagnósticos e tratamentos permanece limitado.

Esse tipo viral possui uma característica específica: necessita da presença prévia ou simultânea do vírus da hepatite B para se instalar no organismo. Quando ocorrem infecções simultâneas, a doença tende a ser mais agressiva, podendo evoluir para formas fulminantes, cirrose e hepatocarcinomas.

Estudos genéticos indicam que o vírus da hepatite D mantém um ciclo próprio e duradouro na Amazônia. O fortalecimento da vacinação contra a hepatite B surge como a principal estratégia preventiva, visto que sem a hepatite B não há desenvolvimento da hepatite Delta.

Hepatite E e o conceito de Saúde Única

A hepatite E configura uma zoonose, ou seja, uma doença transmitida de animais para seres humanos, tendo como principal reservatório os suínos. No Brasil, observou-se maior prevalência na região Sul devido à concentração de atividades de suinocultura.

Pinho destaca que o combate a essa variante exige a abordagem de Saúde Única, integrando o cuidado humano e a saúde animal. Apesar de geralmente provocar quadros agudos mais brandos que podem passar despercebidos, o tipo E requer ampliação de estudos epidemiológicos no país.

Panorama de prevalência e apoio governamental

Entre os 200 artigos científicos analisados, a hepatite B foi a mais documentada, seguida pelo tipo C. Os indicadores revelaram que a hepatite A atinge prevalência de até 88,1% em populações privadas de liberdade e de 87,4% entre imigrantes.

No caso da hepatite C, o uso de drogas injetáveis elevou a soroprevalência para 36,9%. O diagnóstico detalhado visa direcionar recursos e formular estratégias regionais para o combate eficaz das hepatites.

O estudo contou com o suporte do Proadi-SUS, programa fundado em 2009 que integra sete hospitais filantrópicos de referência no Brasil — como o Einstein, Sírio-Libanês e Moinhos de Vento —, revertendo imunidade fiscal em projetos estratégicos para o Ministério da Saúde.

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista REG. PROF. FENAJ - 4407/PB | API/PB 3072