A leitura política do “erro” de Zé Aldemir

Na política, algumas decisões só podem ser avaliadas verdadeiramente depois que as urnas fecham. Outras, porém, deixam rastros antes mesmo da campanha começar. É justamente esse o caso da escolha de Zé Aldemir de disputar uma vaga para deputado estadual em 2026, movimento que, segundo Júnior Araújo, foi precedido por um alerta direto sobre os riscos da estratégia.

Em diferentes declarações ao longo do ano, Júnior afirmou ter conversado pessoalmente com Zé Aldemir e defendido que o ex-prefeito disputasse uma cadeira na Câmara Federal. Em abril, o deputado já dizia que havia mostrado a Aldemir que ele teria condições de ser eleito federal e que poderia se arrepender de abandonar esse projeto. 

A questão ganhou novo peso após o desfecho eleitoral. Em declaração repercutida nesta quarta-feira (7), Júnior voltou ao episódio e afirmou que chegou a apresentar sua leitura do cenário em uma reunião realizada em sua própria residência. Para ele, a candidatura federal permitiria uma composição diferente dentro do grupo político de Cajazeiras. 

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O ponto central da análise de Júnior era simples: evitar que duas lideranças do mesmo campo político disputassem diretamente o mesmo espaço eleitoral. Segundo o deputado, havia um entendimento para que Zé Aldemir buscasse a Câmara Federal enquanto ele próprio disputaria a reeleição para a Assembleia Legislativa. Essa versão também aparece em declarações feitas por Júnior em maio. 

O que parecia, antes da eleição, uma divergência de estratégia transformou-se depois das urnas em uma discussão sobre a escolha do caminho eleitoral.

Júnior sustentava que a composição poderia beneficiar os dois projetos. A avaliação sobre a terceira vaga federal, inclusive, já havia sido apresentada por ele meses antes como uma oportunidade aberta dentro da chapa proporcional. Na ocasião, o parlamentar afirmou que a disputa pela vaga restante estaria em aberto e que o eleito poderia chegar com votação inferior à dos nomes considerados mais consolidados.

Há, porém, uma diferença importante entre a previsão e o fato consumado. A afirmação de que Zé Aldemir teria sido eleito deputado federal permanece sendo uma avaliação política feita por Júnior Araújo, não algo que possa ser tratado como resultado comprovável de uma eleição que não ocorreu com Aldemir candidato a federal.

O que efetivamente pode ser observado é o outro lado da equação: Zé Aldemir decidiu disputar a Assembleia Legislativa, encontrando no mesmo espaço eleitoral o próprio Júnior Araújo. O episódio provocou uma disputa dentro de um campo político que anteriormente discutia uma composição diferente. O próprio Aldemir, em maio, negou a existência de um acordo nos termos apresentados por Júnior e classificou o deputado como “conspirador político”, enquanto confirmou que havia desistido do projeto federal para disputar novamente a Assembleia. 

Esse contraponto é importante porque impede que a narrativa seja reduzida a uma única versão. Júnior apresenta o episódio como uma escolha equivocada de estratégia. Aldemir, por sua vez, não reconheceu a existência do compromisso nos moldes defendidos pelo parlamentar.

A política, nesse caso, não entregou apenas um resultado eleitoral. Entregou também uma espécie de experimento sobre como decisões tomadas dentro de um grupo podem alterar completamente a distribuição de forças. A escolha de Zé Aldemir colocou em rota de colisão projetos que, segundo a versão de Júnior, poderiam ter ocupado espaços diferentes.

O mais interessante é que o alerta não surgiu depois do resultado. Ele foi registrado publicamente meses antes. Em abril, Júnior já dizia que Zé Aldemir poderia se arrepender da mudança de rota; em maio, voltou a afirmar que considerava equivocada a opção pela candidatura estadual.

Agora, depois da eleição, a declaração ganha naturalmente uma nova dimensão política. Não porque seja possível afirmar que a alternativa federal garantiria matematicamente a eleição de Aldemir, mas porque o cenário escolhido acabou produzindo exatamente o confronto interno que Júnior dizia querer evitar.

No fundo, a discussão não é apenas sobre Zé Aldemir ou Júnior Araújo. É sobre uma regra antiga da política: quando duas lideranças disputam o mesmo espaço dentro de uma mesma base, a decisão sobre onde cada uma vai jogar pode ser tão importante quanto a quantidade de votos que cada uma consegue reunir.

E talvez seja justamente essa a principal leitura que fica dos bastidores de 2026 em Cajazeiras: não existe como reabrir a urna, mas é possível revisitar as decisões que levaram até ela.

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista. REG. PROF. FENAJ 4407/PB | API/PB 3072