A política de Uiraúna volta ao centro das discussões no Sertão paraibano. Desta vez, não apenas pelas divergências entre grupos políticos ou pelos movimentos de bastidores em torno da sucessão municipal, mas por um episódio que colocou a família da prefeita Leninha Romão e integrantes da Polícia Militar em lados opostos de uma controvérsia que exige esclarecimentos.

Na noite de 25 de outubro de 2026, uma ocorrência em um posto de combustíveis da cidade ganhou repercussão e provocou manifestações públicas. De acordo com o relato registrado em boletim de ocorrência e com nota divulgada pelo comando policial, o filho da prefeita teria interferido no abastecimento de uma viatura e, durante a abordagem, agredido um policial militar com um soco no rosto, causando lesões e danificando os óculos do agente. Ainda conforme a versão apresentada pela corporação, a contenção e o uso de algemas ocorreram diante da resistência à abordagem.

A versão apresentada pela prefeita é diferente. Em declarações públicas e áudios que circularam sobre o caso, Leninha Romão questionou a atuação dos policiais, apontou suposta truculência e abuso de autoridade e afirmou ter encaminhado denúncias e gravações ao governador do Estado.

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São versões conflitantes. E é justamente por isso que o episódio precisa ser esclarecido pelas instâncias competentes, com análise das provas, dos registros da ocorrência e de eventuais imagens disponíveis. Não cabe à opinião pública antecipar uma sentença, mas também não cabe à administração municipal tratar questionamentos dessa natureza como se fossem apenas uma disputa política.

A Polícia Militar, por sua vez, manifestou-se em defesa da atuação dos agentes e repudiou o que considerou acusações ofensivas à corporação. A nota atribuída ao comando também informou a intenção de adotar medidas judiciais. O caso, portanto, ultrapassou o ambiente de uma ocorrência policial e passou a envolver um debate institucional sobre a independência da atuação dos agentes de segurança e os limites da influência política.

Cargo público não pode ser confundido com autoridade para interferir no trabalho das instituições, assim como a farda não pode ser utilizada como justificativa para eventuais excessos.

Mas a discussão sobre Uiraúna não termina nesse episódio. O ambiente político do município também tem sido marcado por relatos de distanciamento entre a prefeita e o vice-prefeito, Dr. Marlon Arthur. Notícias e manifestações de atores políticos locais apontam um possível rompimento na relação entre os dois, enquanto opositores questionam a condução das articulações para a sucessão municipal e levantam críticas sobre uma possível preferência da gestora pelo nome de sua sobrinha, Aninha Romão.

Essas avaliações pertencem ao campo do debate político e precisam ser tratadas como manifestações atribuídas a seus autores, não como fatos comprovados. Ainda assim, levantam uma questão legítima: qual é o projeto político que está sendo construído para Uiraúna? A prioridade deve ser a continuidade de políticas públicas e o interesse coletivo ou a organização de um grupo familiar em torno do poder?

No campo administrativo, também existem questionamentos que merecem atenção. Conforme os apontamentos apresentados sobre a atuação do Tribunal de Contas do Estado da Paraíba, uma licitação estimada em R$ 14,5 milhões, destinada à aquisição de materiais de construção e equipamentos, foi objeto de julgamento com apontamento de irregularidades e aplicação de multa à gestora. Também foi mencionada a emissão de parecer pela rejeição das contas municipais de 2022, relacionado ao cumprimento dos investimentos constitucionais em educação.

É fundamental distinguir o parecer técnico ou ministerial de uma decisão definitiva sobre as contas. A situação processual, os fundamentos do julgamento e a possibilidade de recurso precisam ser considerados antes de qualquer conclusão. Transparência, nesse caso, significa apresentar os documentos e permitir que a população compreenda exatamente o que foi apontado pelos órgãos de controle.

Na esfera eleitoral, também há referência a uma penalidade de R$ 50 mil aplicada à prefeita pela Justiça Eleitoral em razão de descumprimento de normas sanitárias durante a campanha de 2020. O episódio integra o histórico de questionamentos envolvendo a gestão e deve ser apresentado conforme os termos da decisão judicial correspondente.

O que se espera de uma prefeita não é silêncio diante das críticas, tampouco uma resposta baseada apenas no confronto. Espera-se esclarecimento, transparência e disposição para enfrentar questionamentos sobre a administração pública. Quem ocupa um cargo dessa dimensão precisa compreender que a cobrança faz parte da democracia.

Uiraúna não pertence a uma família, a um grupo político ou a uma gestão. Pertence à população. E a população tem o direito de saber o que aconteceu, quais providências foram tomadas e quais explicações existem para os questionamentos que cercam o poder municipal.

O espaço público exige responsabilidade de todos: de quem governa, de quem fiscaliza e também de quem exerce a autoridade policial.

A crítica política não significa condenação antecipada. Significa cobrar respostas, confrontar versões e exigir que os fatos sejam apurados sem privilégios, pressões ou interferências.

ESPAÇO ABERTO PARA MANIFESTAÇÃO

A coluna deixa registrado que o espaço permanece aberto à prefeita Leninha Romão e à sua assessoria de comunicação para apresentar esclarecimentos, contestar informações, encaminhar documentos ou apresentar sua versão sobre os episódios e questionamentos mencionados. Caso haja manifestação, o conteúdo será avaliado e poderá ser publicado, garantindo o contraditório e o direito de resposta nos termos da legislação.

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista. REG. PROF. FENAJ 4407/PB | API/PB 3072