Uiraúna precisa de respostas. E não são respostas construídas com discursos políticos, justificativas genéricas ou tentativas de transformar questionamentos administrativos em perseguição. O que está em discussão é a qualidade da gestão pública, a aplicação dos recursos municipais e o respeito às instituições que têm a obrigação de fiscalizar quem administra o dinheiro da população.

A prefeita Leninha Romão está diante de um conjunto de questionamentos que merece atenção. Não se trata de uma divergência entre adversários políticos, mas de registros relacionados à fiscalização das contas públicas, ao cumprimento de obrigações constitucionais e à condução administrativa do município.

QUANDO O ASSUNTO É DINHEIRO PÚBLICO, A POPULAÇÃO NÃO TEM QUE ACEITAR DESCULPAS: TEM O DIREITO DE EXIGIR EXPLICAÇÕES.

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O TCE-PB e os números que incomodam

Um dos episódios que chama atenção envolve o Pregão Presencial nº 030/2022, destinado à aquisição de materiais de construção, elétricos, hidráulicos, equipamentos e bombas para as secretarias municipais e o Fundo Municipal de Saúde. O procedimento, estimado em aproximadamente R$ 14,5 milhões, foi julgado irregular pelo Tribunal de Contas do Estado da Paraíba, que identificou inconsistências, inclusive relacionadas a sobrepreços em itens da licitação.

Mas a situação não parou por aí.

Nas contas referentes ao exercício de 2022, o TCE-PB emitiu parecer contrário à aprovação da prestação de contas de Uiraúna. O principal fundamento foi o descumprimento do percentual mínimo constitucional de 25% de aplicação de recursos na educação. O processo admitia recurso, conforme o próprio Tribunal informou.

Em março de 2026, o Tribunal também julgou irregulares as contas municipais de 2023 e aplicou multa de R$ 5 mil à prefeita, apontando inconsistências e novamente o descumprimento do mínimo constitucional destinado à educação. A decisão ainda admitia recurso. 

E há outro dado ainda mais recente: em agosto de 2026, o Pleno do TCE-PB reprovou as contas referentes ao exercício de 2024. Segundo o Tribunal, Uiraúna aplicou apenas 23,47% dos recursos na educação, abaixo dos 25% exigidos pela Constituição. Durante a análise, também foram mencionados gastos de aproximadamente R$ 2,2 milhões com festas. A decisão igualmente admite recurso.

É preciso compreender o tamanho dessa discussão. Educação não é despesa secundária, não é favor de governante e muito menos uma área que pode ficar em segundo plano enquanto a administração escolhe suas prioridades. O percentual constitucional existe para assegurar investimento mínimo em uma das áreas mais importantes para o futuro de qualquer município.

Quando o Tribunal aponta descumprimento desse limite em diferentes exercícios, a cobrança deixa de ser apenas política e passa a ser uma questão de responsabilidade administrativa.

A Justiça Eleitoral também integra esse histórico

Na esfera eleitoral, há registro de decisão da 53ª Zona Eleitoral que condenou Leninha Romão ao pagamento de multa de R$ 50 mil por descumprimento de regras sanitárias durante a campanha de 2020, em razão de eventos com aglomeração de pessoas no período de restrições. A sentença foi noticiada em dezembro daquele ano.

O episódio também merece ser lembrado dentro do debate sobre responsabilidade pública. As regras institucionais precisam valer para todos, independentemente do cargo, da influência política ou do tamanho da base eleitoral.

O poder não pode ser tratado como patrimônio particular

Outro aspecto que movimenta o cenário político de Uiraúna é o distanciamento entre a prefeita e o vice-prefeito, Dr. Marlon Arthur. Notícias e manifestações de atores políticos locais apontam desgaste na relação e questionamentos sobre o espaço concedido a antigos aliados.

Também existem críticas da oposição em relação à possibilidade de uma sucessão municipal conduzida em torno de nomes da própria família da prefeita, com referências à sua sobrinha, Aninha Romão.

Essas articulações fazem parte do debate político e precisam ser esclarecidas pelos envolvidos. Não há problema em discutir sucessão, apresentar nomes ou construir projetos eleitorais. O problema começa quando a população passa a ter a impressão de que os interesses de um grupo podem se sobrepor ao interesse coletivo.

A Prefeitura não é propriedade de quem ocupa temporariamente o gabinete. A estrutura administrativa pertence ao município, e os cargos públicos existem para servir à população, não para satisfazer projetos pessoais ou familiares.

O episódio com a Polícia Militar exige apuração e responsabilidade

A ocorrência registrada em 25 de outubro de 2026, em um posto de combustíveis de Uiraúna, acrescentou mais tensão ao ambiente político e institucional.

De acordo com nota divulgada pela defesa do capitão Cleomarx Dias de Souza, comandante da 2ª Companhia do 6º BPM, o filho da prefeita teria importunado policiais durante o atendimento de uma ocorrência e, ao ser informado de que seria conduzido à delegacia, agredido um dos militares com um soco no rosto, provocando lesões e a quebra dos óculos do agente. A defesa afirmou que os fatos foram registrados em boletim de ocorrência e que o estabelecimento possui câmeras de monitoramento. "Nota da defesa do comandante da 2ª Companhia do 6º BPM"

A prefeita, por outro lado, apresentou versão diferente. Em declarações públicas, afirmou que o filho teria sido agredido pelos policiais e questionou a abordagem, apontando supostos excessos e abuso de autoridade. "Manifestação pública da prefeita sobre a ocorrência"

São narrativas conflitantes, e a apuração precisa considerar os registros policiais, as imagens, os depoimentos e as manifestações das partes. Não cabe a uma coluna antecipar culpa ou absolvição. Cabe cobrar que os fatos sejam esclarecidos sem privilégios e sem interferência política.

O que não pode acontecer é a transformação de uma ocorrência policial em instrumento de pressão contra instituições ou, no sentido contrário, a utilização da autoridade policial para afastar qualquer possibilidade de fiscalização sobre a própria conduta dos agentes.

Uiraúna merece mais do que disputas pelo poder

A população precisa saber como estão sendo aplicados os recursos municipais, quais providências foram adotadas para corrigir as falhas apontadas pelo TCE-PB e o que a administração pretende fazer para garantir que a educação cumpra os índices constitucionais.

Também precisa de explicações sobre os procedimentos licitatórios, os gastos públicos e a condução política da Prefeitura.

Leninha Romão tem o direito de apresentar sua defesa, contestar os apontamentos, recorrer das decisões e esclarecer os episódios. Mas esse direito não elimina o dever de prestar contas. Pelo contrário: quanto maior a responsabilidade de quem governa, maior deve ser a disposição para explicar seus atos.

Uiraúna não precisa de uma administração que enxergue toda cobrança como ataque político. Precisa de uma gestão que compreenda que transparência não é favor, fiscalização não é perseguição e crítica jornalística não é inimiga da democracia.

O município pertence ao povo, e nenhum grupo político tem autorização para agir como se fosse dono de sua Prefeitura.

ESPAÇO ABERTO PARA MANIFESTAÇÃO

A coluna mantém espaço aberto à prefeita Leninha Romão e à sua assessoria de comunicação para apresentar esclarecimentos sobre os apontamentos do TCE-PB, os procedimentos administrativos citados, as questões políticas e a ocorrência envolvendo seu filho e a Polícia Militar.

A manifestação poderá ser encaminhada à redação, acompanhada de documentos e esclarecimentos que a gestão considere pertinentes, para avaliação e eventual publicação, assegurando o contraditório e o direito de resposta nos termos da legislação.

Instagram oficial: @wgleyssondesouza

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista. REG. PROF. FENAJ 4407/PB | API/PB 3072