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A eleição da Paraíba entrou naquela fase em que ninguém mais esconde o jogo. Faltando poucos dias para a votação, o grupo governista parece ter definido com clareza sua prioridade para a reta final: consolidar Lucas Ribeiro no Governo e transformar João Azevêdo e Nabor Wanderley na dupla eleita para o Senado.
Não se trata de afirmar a existência de um “esquema” no sentido de qualquer irregularidade. O que os movimentos públicos dos últimos dias permitem observar é uma operação política de concentração de forças, envolvendo algumas das principais lideranças do grupo: Aguinaldo Ribeiro, Hugo Motta, João Azevêdo e aliados regionais.
A matemática ajuda a explicar a pressa.
Na pesquisa Quaest divulgada em 25 de agosto, João Azevêdo aparecia com 27% das intenções de voto para o Senado, Veneziano Vital do Rêgo com 17% e Nabor Wanderley com 9%. A diferença entre Veneziano e Nabor era, portanto, de oito pontos percentuais. O levantamento ouviu 804 eleitores entre 21 e 24 de agosto e tinha margem de erro de três pontos.
Outro levantamento daquele período, do Real Time Big Data, também mostrava João na liderança, com 29%. Veneziano aparecia com 23%, enquanto Nabor e Marcelo Queiroga registravam 15% cada. Foram entrevistados 1.600 eleitores, com margem de erro de dois pontos percentuais.
É justamente aí que começa o desafio.
Se utilizarmos a Quaest apenas como fotografia daquele momento, eram oito pontos separando Nabor de Veneziano. Evidentemente, eleição não funciona como uma régua em que basta retirar um ponto do adversário a cada dois dias. Transferência de apoio político não significa transferência automática de voto.
Mas a movimentação dos últimos dias indica onde o grupo governista decidiu procurar esses votos: nas bases políticas e municipais que ainda estavam vinculadas a Veneziano.
E a ofensiva começou a aparecer publicamente.
O VALE DO PIANCÓ DEU O SINAL
Na sexta-feira (18), o grupo governista de Piancó, liderado pelo prefeito Julhinho, pela ex-prefeita Flávia Galdino e pelo ex-prefeito Daniel Galdino, deixou o apoio a Veneziano e anunciou adesão a Nabor.
O encontro reuniu Hugo Motta, Adriano Galdino e Daniella Ribeiro. A articulação foi atribuída também a Aguinaldo Ribeiro. Além de Piancó, prefeitos e lideranças de Santana dos Garrotes, Ibiara, Boa Ventura, Coremas e Igaracy foram anunciados no movimento de apoio a Nabor.
É uma mudança particularmente simbólica porque, pouco mais de um mês antes, Flávia e Daniel Galdino haviam participado da articulação de um encontro com Veneziano que reuniu prefeitos da região.
A política tem dessas delicadezas. Em agosto, fotografia de um lado. Em setembro, palanque do outro.
Mas houve também um erro político no episódio: os ataques dirigidos a Flávia após a mudança de posição. Discordar da decisão política é legítimo. Transformar uma mulher em alvo pessoal por ter feito uma escolha que homens fazem todos os dias na política é outra história.
E, goste-se ou não da decisão dela, o movimento de Piancó acabou sendo seguido por novas mudanças.
DEPOIS DE PIANCÓ, OUTRAS PORTAS SE ABRIRAM
No sábado (19), a prefeita de Cruz do Espírito Santo, Aliny Povão, deixou os apoios a Efraim Filho para o Governo e Veneziano para o Senado e anunciou adesão à chapa formada por Lucas Ribeiro, João Azevêdo e Nabor Wanderley. A articulação foi atribuída ao deputado Murilo Galdino.
Em Alagoinha aconteceu outro movimento importante.
O prefeito Alírio Filho, embora filiado ao MDB, retirou o apoio a Veneziano e declarou voto em João Azevêdo para o Senado. Alírio já apoiava Lucas para governador e Nabor para uma das vagas de senador. Com a mudança, passou a apoiar a composição completa do grupo governista. A articulação foi relacionada publicamente a Aguinaldo Ribeiro.
Perceba o desenho.
Em Piancó, sai Veneziano e entra Nabor.
Em Cruz do Espírito Santo, saem Efraim e Veneziano e entram Lucas e João, completando o alinhamento governista com Nabor.
Em Alagoinha, sai Veneziano e entra João.
São movimentos diferentes, mas todos terminam fortalecendo alguma parte do mesmo tripé eleitoral: Lucas, João e Nabor.
E FELIPE LEITÃO?
Também existe movimentação envolvendo o deputado estadual Felipe Leitão.
Aqui é preciso separar fato de especulação.
Felipe declarou que Nabor será seu primeiro voto para o Senado e indicou que anunciaria posteriormente sua segunda escolha. Há expectativa política de substituição de Veneziano por João Azevêdo, mas, nas informações verificadas até aqui, o deputado reafirmou sua aliança com Cícero Lucena para o Governo. Portanto, não cabe apresentar como fato uma eventual adesão completa a Lucas enquanto ela não estiver confirmada.
Esse detalhe é importante porque mostra que a operação política não precisa necessariamente desmontar todas as alianças de uma liderança.
Às vezes basta trocar uma peça.
VENEZIANO TAMBÉM RECEBE
Seria errado apresentar essa movimentação como uma avenida de mão única.
Neste domingo (20), Samuel Pinto confirmou movimento no sentido contrário: deixou Nabor Wanderley e passou a apoiar Veneziano para o Senado. Ele também indicou apoio a André Gadelha para a outra vaga e a Cícero Lucena para o Governo.
Portanto, Veneziano perde apoios, mas também recebe adesões.
Essa é justamente a razão pela qual contar prefeitos, vereadores e lideranças não permite transformar automaticamente movimentação política em resultado eleitoral.
Prefeito tem influência.
Deputado tem influência.
Liderança regional tem influência.
Mas nenhum deles carrega o eleitor dentro do bolso.
LUCAS PARECE SER A PARTE MAIS CONFORTÁVEL DA OPERAÇÃO
Enquanto a disputa pelo Senado exige essa engenharia, Lucas Ribeiro chega à reta final em posição numericamente mais confortável nas pesquisas disponíveis.
Na pesquisa Anova realizada entre 3 e 5 de setembro, Lucas registrou 43,4% das intenções de voto, contra 18,2% de Cícero Lucena e 12,1% de Efraim Filho. No cálculo de votos válidos divulgado pelo instituto, Lucas alcançava 58,26%, percentual que, se reproduzido nas urnas, seria suficiente para encerrar a disputa no primeiro turno. A margem de erro era de 2,2 pontos percentuais.
Outro levantamento, do Ranking Pesquisa, realizado entre 5 e 7 de setembro, registrou Lucas com 41,3%, Cícero com 18,1% e Efraim com 13,1%.
Pesquisa é fotografia, não resultado eleitoral. Ainda assim, os números ajudam a entender por que o Senado passou a ocupar tamanho espaço na movimentação governista.
Lucas precisa preservar sua posição.
João precisa consolidar a liderança.
E Nabor precisa crescer.
A MISSÃO MAIS DIFÍCIL ESTÁ NO SENADO
É aí que a estratégia ganha sentido político.
Se João já aparece em posição destacada e Lucas lidera os levantamentos recentes para o Governo, o esforço adicional naturalmente pode ser direcionado para o integrante da chapa que precisa avançar mais: Nabor.
E é impossível ignorar o peso político colocado nessa candidatura.
Nabor não está sozinho numa campanha convencional. Seu filho, Hugo Motta, preside a Câmara dos Deputados e comanda uma estrutura partidária relevante na Paraíba. Reportagem da Folha publicada neste domingo destacou justamente a expansão do Republicanos e a estratégia de Hugo de fortalecer a candidatura do pai por meio da articulação com prefeitos e lideranças municipais.
Ao lado disso estão Aguinaldo Ribeiro, João Azevêdo, Adriano Galdino, Daniella Ribeiro e diferentes lideranças regionais atuando dentro da composição governista.
O movimento dos últimos dias sugere que o governo não quer apenas vencer a eleição para governador: trabalha para tentar fechar a conta completa com Lucas no Governo e João e Nabor no Senado.
E, para isso, Veneziano se transforma naturalmente em um dos principais obstáculos políticos.
Não porque alguém possa simplesmente retirar seus votos por decreto, mas porque ele ocupa justamente uma das posições que o grupo governista pretende conquistar.
OITO PONTOS NÃO DESAPARECEM NUM PASSE DE MÁGICA
Aqui entra a parte que o entusiasmo político costuma esquecer: matemática eleitoral é uma criatura bem menos obediente que liderança partidária.
Tomando como referência a Quaest de agosto, eram oito pontos entre Veneziano e Nabor. Recuperar uma diferença dessa dimensão numa reta final é um desafio relevante, especialmente porque pesquisas possuem margem de erro e diferentes metodologias.
Além disso, tirar apoio político de Veneziano não significa necessariamente retirar votos de Veneziano na mesma proporção.
O prefeito pode mudar.
O vereador pode mudar.
O deputado pode mudar.
E o eleitor pode simplesmente olhar para todos eles e fazer exatamente o contrário.
Essa pequena rebeldia chamada voto secreto ainda costuma atrapalhar os planejamentos mais sofisticados dos caciques políticos.
A próxima rodada de pesquisas será importante justamente porque poderá mostrar se essa sequência de adesões começou a produzir alteração mensurável na intenção de voto ou se, até agora, provocou muito mais barulho político do que movimento eleitoral.
QUINZE DIAS PARA FECHAR A CONTA
A operação está visível.
A concentração de lideranças também.
E as mudanças de apoio ocorridas desde sexta-feira oferecem elementos concretos para dizer que existe uma ofensiva política na reta final.
Mas existe uma distância considerável entre montar uma estratégia e conseguir executá-la eleitoralmente.
O grupo governista possui estrutura, prefeitos, parlamentares, lideranças regionais e candidatos competitivos. Veneziano, por outro lado, chega à reta final ocupando posição relevante nos levantamentos para o Senado e tentará preservar sua própria rede de alianças enquanto explora politicamente cada movimento contrário.
Agora começa a prova real.
Não será medida pela quantidade de fotografias de adesão publicadas no Instagram nem pelo número de prefeitos apresentados em cima de um palanque.
Será medida na urna.
A estratégia está montada.
Os 15 dias estão correndo.
E a pergunta que passa a acompanhar a reta final da eleição paraibana é simples:
o grupo governista conseguirá transformar sua força política em votos suficientes para fechar a conta de Lucas, João e Nabor?
Essa resposta nem Aguinaldo, nem Hugo, nem João, nem Veneziano têm hoje.
Quem ainda guarda essa resposta é o eleitor.
Instagram oficial: @wgleyssondesouza
Publicado por:
SERTÃO DA PARAÍBA
🎙️ Jornalista • DRT 4407/PB ⚖️ Acadêmico de Direito 📡 CEO | TV Sertão • Ide Agência 📰 Jornalismo, mídia & comunicação 📍 Paraíba | Brasil
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