A disputa pela segunda vaga ao Senado na Paraíba chegou ao momento em que não basta contar prefeitos, medir palanques ou observar quem aparece melhor posicionado nas pesquisas. O eleitorado está diante de três estratégias distintas, e a pergunta central passou a ser qual delas consegue transformar estrutura, identidade política e rejeição em voto efetivo.

João Azevêdo aparece em uma posição mais confortável na corrida. O cenário mais complexo está justamente na segunda vaga, onde Veneziano Vital do Rêgo, Nabor Wanderley e Marcelo Queiroga representam caminhos eleitorais completamente diferentes.

A pesquisa Quaest divulgada em agosto colocou João Azevêdo com 27%, Veneziano com 17%, Nabor com 9%, Marcelo Queiroga com 6% e Major Fábio com 5%. Considerando a margem de erro de três pontos percentuais, Nabor, Queiroga e Major Fábio estavam tecnicamente empatados. O dado mais relevante, porém, talvez não esteja apenas nos percentuais, mas no tamanho do eleitorado ainda disponível para movimentação.

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É aí que começa o problema de Nabor.

O ex-prefeito de Patos construiu uma candidatura baseada no municipalismo e em uma rede extensa de apoios políticos. A lógica é conhecida na política paraibana: prefeitos, vereadores, deputados e lideranças locais funcionando como uma rede de capilaridade capaz de levar o nome do candidato aos municípios.

Mas estrutura política não é sinônimo automático de transferência de votos.

O desafio de Nabor é transformar uma estrutura política gigantesca em uma votação que corresponda ao tamanho do palanque construído.

Existe ainda um segundo elemento que precisa ser considerado: o peso político de Hugo Motta, filho de Nabor e uma das principais lideranças nacionais da Paraíba. A AtlasIntel apontou Hugo como o nome mais rejeitado entre os políticos avaliados no estado, com 63,5% dos entrevistados dizendo que não votariam nele de jeito nenhum. Nabor também apareceu com rejeição elevada, de 45,2%.

Isso não significa, por si só, que a rejeição de Hugo seja automaticamente transferida para Nabor. Política não funciona como uma conta simples de soma e subtração. Mas também seria ingenuidade ignorar que, quando pai e filho estão eleitoralmente associados, a imagem de um pode interferir na percepção do outro.

O problema de Nabor, portanto, não parece ser falta de estrutura. O ponto central é outro: quanto dessa estrutura consegue atravessar a barreira da rejeição e chegar efetivamente ao eleitor?

Do outro lado está Marcelo Queiroga.

O ex-ministro da Saúde adotou uma estratégia diferente. Em vez de tentar competir diretamente com Nabor no terreno do municipalismo, Queiroga trabalha uma candidatura de identidade nacional, vinculada ao campo da direita e à família Bolsonaro.

É uma aposta de risco, mas também de oportunidade.

Queiroga já demonstrou capacidade de superar expectativas eleitorais. Na eleição para a Prefeitura de João Pessoa, quando não era tratado inicialmente como favorito absoluto pelas pesquisas, conseguiu avançar ao segundo turno. O precedente alimenta uma narrativa dentro de sua campanha: a de que determinados segmentos do eleitorado de direita podem apresentar comportamento diferente daquele captado antecipadamente pelas pesquisas.

O problema, naturalmente, é que eleição não se ganha com precedente. Ganha-se com voto.

E a questão que permanece para Queiroga é saber até que ponto sua nacionalização consegue transformar identificação ideológica em votos suficientes para ultrapassar uma estrutura municipalista como a de Nabor.

Há ainda Veneziano.

Sua estratégia é talvez a mais tradicional das três: nacionalizar a candidatura pela esquerda e associar sua imagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O senador busca ocupar um espaço eleitoral no qual a identificação com o governo federal funciona como principal ativo político.

É uma estratégia diferente da de Queiroga, mas utiliza mecanismo semelhante: transformar uma disputa estadual em uma escolha influenciada pela política nacional.

Assim, a segunda vaga pode ser compreendida a partir de três modelos eleitorais.

Veneziano aposta na força do lulismo.

Queiroga aposta na força do bolsonarismo e da direita nacional.

Nabor aposta na força das alianças municipais e da estrutura política construída no estado.

O curioso é que nenhum dos três modelos está completamente garantido.

O voto de esquerda pode beneficiar Veneziano, mas também pode ser disputado por outros nomes dependendo do cenário presidencial e da capacidade de cada candidatura de vincular sua imagem ao campo nacional.

A direita pode impulsionar Queiroga, mas esse eleitorado também possui outras opções e não necessariamente votará de maneira uniforme para o Senado.

E o municipalismo pode produzir uma enorme rede de apoios para Nabor, mas apoio de liderança não é necessariamente voto consolidado na urna.

É justamente nesse espaço entre a estrutura e o voto que a eleição pode ser decidida.

Outro dado merece atenção: na pesquisa espontânea da Quaest, 75% dos eleitores ainda estavam indecisos quando os nomes não eram apresentados. Isso revela o tamanho do desconhecimento e da volatilidade existentes na disputa pelo Senado.

O eleitor paraibano pode chegar à urna carregando duas escolhas para o Senado, e isso cria uma dinâmica diferente daquela observada em eleições majoritárias de uma única vaga. Um candidato pode ser escolhido como primeira opção e outro como segunda. Alianças também podem produzir votos cruzados.

Por isso, a disputa não deve ser lida apenas pela fotografia de uma pesquisa.

O que está em jogo é uma corrida entre três modelos de campanha. De um lado, a força de uma máquina política municipal. De outro, a capacidade de mobilização ideológica da direita nacional. No meio, uma candidatura que tenta transformar a proximidade com Lula em vantagem eleitoral.

A segunda vaga, portanto, não parece ser apenas uma disputa entre nomes. É uma disputa entre métodos.

E, quando métodos diferentes chegam à reta final, a eleição costuma revelar uma coisa que nenhuma estrutura política consegue controlar completamente: o voto pertence ao eleitor, não ao palanque.

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista. REG. PROF. FENAJ 4407/PB | API/PB 3072