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Lula e Flávio Bolsonaro não compareceram ao debate presidencial promovido pela Band. Os dois principais nomes da disputa escolheram deixar as cadeiras vazias e abriram espaço para que os demais candidatos falassem diretamente ao eleitor.
A ausência dos favoritos não pode ser tratada como detalhe. Debate eleitoral existe justamente para tirar o candidato do ambiente controlado da propaganda, colocá-lo diante dos adversários e obrigá-lo a responder perguntas que sua própria campanha jamais faria.
Quando os líderes das pesquisas fogem desse ambiente, quem perde é o eleitor.
O número correto
Depois do debate, circularam comentários sobre um suposto salto de Augusto Cury de 1% para 11%. Os levantamentos mais recentes, porém, não sustentam esse número.
Na pesquisa Palver divulgada em 21 de setembro, quem aparece com 11% é Renan Santos. Augusto Cury registra 2%. Lula tem 41% e Flávio Bolsonaro, 42%, dentro de um cenário de disputa apertada.
Já na BTG/Nexus, Cury alcança 6%, enquanto Lula aparece com 40% e Flávio, com 37%. O dado correto não elimina a discussão política; pelo contrário, deixa a pergunta ainda mais interessante: quem realmente aproveita o espaço abandonado pelos favoritos?
Não é possível atribuir qualquer crescimento exclusivamente ao desempenho num debate. Pesquisas diferentes utilizam períodos, amostras e metodologias próprias. Entretanto, existe uma conclusão política evidente: quando os primeiros colocados não aparecem, oferecem aos adversários uma vitrine que dificilmente teriam em condições normais.
Por que eles não vão?
A pergunta precisa ser feita diretamente: por que Lula e Flávio Bolsonaro evitam o confronto?
As campanhas podem apresentar justificativas estratégicas, compromissos de agenda ou discordâncias com as regras. Tudo isso faz parte do jogo. Mas também existe uma razão politicamente incômoda: quem lidera as pesquisas costuma avaliar que tem mais a perder do que a ganhar num debate.
Lula carrega o desgaste de governos petistas, denúncias históricas, questionamentos sobre sua administração e episódios envolvendo aliados. Flávio Bolsonaro também precisa responder sobre as controvérsias que acompanham seu grupo político e sobre a estrutura partidária que sustenta sua candidatura.
O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, é um velho conhecido da política brasileira. Sua presença no comando da legenda mostra que o bolsonarismo, apesar do discurso contra o sistema, também está inserido nas engrenagens tradicionais do poder.
Renan joga pesado
Renan Santos não utiliza luvas de seda. Seu estilo é agressivo, direto e, muitas vezes, ultrapassa a elegância esperada de um candidato à Presidência. Mas é justamente essa postura que pode provocar desconforto nos adversários.
Renan ameaça colocar sobre a mesa acusações, escândalos e contradições que as campanhas de Lula e Flávio prefeririam administrar separadamente, por meio de entrevistas controladas e peças publicitárias.
Isso não significa que todas as acusações apresentadas por ele sejam verdadeiras. Cada afirmação precisa ser examinada, comprovada e submetida ao contraditório. Entretanto, nenhum candidato pode exigir adversário educado, pergunta previamente combinada ou debate sem incômodo.
Quem deseja governar o Brasil precisa enfrentar perguntas duras, inclusive aquelas feitas por adversários sem qualquer delicadeza.
A caneta de Toffoli
Foi nesse ambiente que uma decisão atribuída ao ministro Dias Toffoli suspendeu atividades da campanha de Renan Santos. A medida teve repercussão direta na disputa, embora posteriormente tenham surgido informações sobre recuo e liberação das atividades eleitorais.
Portanto, não é correto afirmar que Renan tenha sido definitivamente retirado da eleição. Mas também seria ingenuidade tratar uma intervenção judicial numa campanha presidencial como um acontecimento comum e sem consequência política.
O contexto aumenta o desconforto porque Renan vinha fazendo críticas a Toffoli e levantando questionamentos relacionados ao caso Banco Master. Isso, isoladamente, não prova perseguição, retaliação ou desvio de finalidade. Contudo, reforça a necessidade de fundamentação pública, transparência absoluta e tratamento institucional cuidadoso.
Uma decisão judicial pode ser tecnicamente legítima e, ainda assim, produzir efeitos políticos. É justamente por isso que a Justiça Eleitoral precisa afastar qualquer aparência de interferência seletiva.
Coincidência ou conveniência?
Não existem provas de que Lula e Flávio Bolsonaro tenham combinado suas ausências. Também não há elementos suficientes para afirmar que emissoras, partidos e integrantes do Judiciário tenham formado uma articulação para retirar Renan Santos dos debates.
Mas o jornalismo crítico não deve deixar de fazer perguntas apenas porque as respostas incomodam.
A ausência dos dois favoritos beneficia suas campanhas ao evitar confrontos imprevisíveis. A eventual retirada de um adversário agressivo também diminuiria o risco enfrentado por ambos. E as emissoras, naturalmente, têm interesse na participação dos candidatos que concentram audiência.
Esses interesses convergem. Convergência, porém, não é prova de acordo. É um cenário que merece atenção, cobrança e vigilância.
O sistema veste várias camisas
Parte do eleitorado acredita que Lula representa o sistema e Flávio Bolsonaro, a ruptura. Essa divisão é conveniente para os dois lados, porque mantém a eleição presa à polarização e transforma qualquer terceira candidatura em personagem secundário.
Mas Lula e Flávio dependem de partidos, fundos eleitorais, alianças, estruturas de comunicação e lideranças tradicionais. Ambos estão inseridos no sistema político que dizem combater ou reformar, cada um à sua maneira.
Um precisa do outro para alimentar a polarização. Lula mobiliza seus eleitores com o medo do bolsonarismo. Flávio mobiliza sua base com a rejeição ao petismo. Enquanto os dois lados brigam publicamente, dominam juntos o espaço político e reduzem a possibilidade de crescimento dos demais candidatos.
Não afirmo que exista uma conspiração fechada numa sala. Afirmo que existem interesses convergentes e uma polarização conveniente. Cabe ao eleitor observar quem comparece, quem responde, quem foge e quem utiliza a caneta para interferir no tabuleiro.
Se Lula e Flávio Bolsonaro querem governar o Brasil, precisam comparecer aos debates. Presidência da República não é cargo para quem escolhe apenas as perguntas fáceis.
Publicado por:
SERTÃO DA PARAÍBA
🎙️ Jornalista • DRT 4407/PB ⚖️ Acadêmico de Direito 📡 CEO | TV Sertão • Ide Agência 📰 Jornalismo, mídia & comunicação 📍 Paraíba | Brasil
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