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Há uma contradição brasileira que merece ser encarada sem rodeios: o Brasil adora o Nordeste quando consome sua cultura, mas ainda existem setores da sociedade que insistem em tratar o nordestino como se fosse inferior quando o assunto é poder, política ou capacidade de desenvolvimento.
O fenômeno não é novo. O Nordeste está presente na música, na literatura, no humor, no futebol, na televisão, na gastronomia e na formação da própria identidade brasileira. Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Raul Seixas, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Chico Anysio, Renato Aragão, Jorge Amado, Graciliano Ramos, José de Alencar, Augusto dos Anjos e Ariano Suassuna são apenas alguns nomes de uma lista que poderia ocupar páginas inteiras.
No esporte, a presença nordestina também é expressiva. Nomes como Zagallo, alagoano, e os baianos Bebeto e Júnior estão entre os personagens que ajudaram a construir a história do futebol brasileiro. O ponto central não é transformar uma região em competição contra outra. É reconhecer que a contribuição nordestina para o Brasil está muito acima do estereótipo de pobreza, seca e dependência que durante décadas foi reproduzido por parte do imaginário nacional.
E a política oferece exemplos ainda mais contundentes.
O paraibano Humberto Lucena chegou à Presidência do Senado em duas ocasiões, de 1987 a 1989 e de 1993 a 1995, além de ter participado de momentos decisivos da política brasileira durante a redemocratização e a Assembleia Nacional Constituinte.
Ou seja: quando se fala em liderança nacional, o Nordeste nunca foi mero espectador.
A própria história econômica brasileira também desmonta parte da narrativa de que o desenvolvimento nacional teria sido construído exclusivamente pelos grandes centros do Sul e Sudeste. Durante décadas, milhões de nordestinos migraram para São Paulo, Rio de Janeiro e outras áreas industrializadas em busca de trabalho, participando diretamente da expansão urbana e industrial dessas regiões. O próprio IBGE registra a dimensão histórica desses fluxos migratórios e o papel de São Paulo como grande polo de atração de migrantes nacionais no processo de industrialização.
Mas existe uma ironia ainda maior.
Enquanto parte do discurso nacional continua enxergando o Nordeste pelo retrovisor, a região transformou setores inteiros de sua economia.
O polo Petrolina-Juazeiro é um dos melhores exemplos. A agricultura irrigada transformou o semiárido em uma área de produção agrícola altamente competitiva, com destaque para uvas e mangas destinadas também ao mercado internacional. Segundo a Codevasf, os projetos públicos de irrigação produziram 4,42 milhões de toneladas de produtos agrícolas em 2024, movimentando R$ 8,15 bilhões em valor bruto de produção e gerando mais de 356 mil empregos diretos, indiretos e induzidos.
No eixo Petrolina-Juazeiro, a própria Codevasf identifica um dos principais polos de fruticultura irrigada do país, com destaque para uva, manga e goiaba e forte participação nas exportações.
Isso não significa que o Nordeste tenha superado suas desigualdades. Muito pelo contrário. Os indicadores ainda mostram diferenças importantes de renda e desenvolvimento em relação a outras regiões. O que mudou foi a capacidade de produzir, empreender, inovar e disputar espaço.
Dados analisados a partir das Contas Regionais do IBGE mostram que, entre 2002 e 2019, o PIB per capita nordestino cresceu proporcionalmente mais que o brasileiro: 4,7 vezes contra 4,2 vezes no país. Isso não elimina a distância existente, mas desmonta a ideia de uma região economicamente parada no tempo.
E talvez esteja aí uma das maiores questões desta discussão.
O preconceito externo é grave. A autodiscriminação é ainda pior.
Existe uma parcela de nordestinos que, diante de alguém do Sul ou do Sudeste, ainda assume uma postura de inferioridade. Como se nascer no Nordeste significasse automaticamente possuir menos capacidade, menos inteligência ou menos competência.
Não significa.
O Nordeste enfrenta seca, desigualdade, dificuldades históricas de infraestrutura e décadas de concentração de investimentos. Ainda assim, produz médicos, engenheiros, professores, cientistas, empresários, artistas, atletas, escritores, jornalistas e políticos que ocupam posições relevantes em todo o país.
A questão, portanto, não deveria ser perguntar por que o nordestino quer se afirmar.
A pergunta correta é por que ainda existe tanta necessidade de afirmar aquilo que deveria ser óbvio: o nordestino não é inferior a ninguém.
Há também uma responsabilidade que pertence ao próprio Nordeste. Defender a região não significa negar seus problemas, romantizar a pobreza ou fingir que tudo funciona. Significa justamente o contrário: reconhecer as dificuldades sem aceitar que elas sejam utilizadas para definir a capacidade de seu povo.
Não existe orgulho verdadeiro quando se precisa esconder os próprios problemas. Mas também não existe justiça quando uma região é lembrada apenas pelos seus problemas.
O Nordeste tem contradições, como qualquer outra parte do Brasil. Tem pobreza e riqueza. Tem atraso e inovação. Tem desigualdade e excelência. Tem municípios extremamente carentes e outros que se tornaram referências nacionais em determinados setores.
É justamente essa complexidade que precisa substituir o velho estereótipo.
O Nordeste não precisa ser colocado acima de ninguém. Precisa apenas deixar de ser colocado abaixo.
No fundo, a frase que resume essa reflexão é simples: nascer no Nordeste não deveria ser motivo de defesa. Deveria ser motivo de orgulho.
Porque o Nordeste não está pedindo favor, esmola ou autorização para existir.
Está apenas lembrando ao Brasil de onde veio uma parte considerável da sua cultura, da sua força de trabalho, da sua inteligência e da sua identidade.
E talvez seja hora de o nordestino parar de baixar a cabeça.
Vivam sua vida e deixem o Nordeste em paz. O nordestino não é inferior a ninguém.
Publicado por:
SERTÃO DA PARAÍBA
🎙️ Jornalista • DRT 4407/PB ⚖️ Acadêmico de Direito 📡 CEO | TV Sertão • Ide Agência 📰 Jornalismo, mídia & comunicação 📍 Paraíba | Brasil
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