A eleição de João Azevêdo para o Senado abriu uma nova porta para o Alto Sertão paraibano. E quem está imediatamente atrás dessa porta é Chico Mendes.

Primeiro suplente da chapa de João Azevêdo, Chico deixa de ser apenas uma liderança regional com atuação na Assembleia Legislativa e passa a ocupar uma posição que o aproxima diretamente do Congresso Nacional. A condição está registrada oficialmente na candidatura e foi confirmada após a eleição de João Azevêdo para o Senado.

É importante, porém, separar possibilidade de fato consumado.

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Chico Mendes não assumirá automaticamente uma cadeira no Senado. Como primeiro suplente, poderá ocupar o mandato caso o titular se afaste nas hipóteses previstas constitucionalmente, como licença ou vacância. A simples condição de suplente, portanto, não significa que exista hoje uma data definida para sua posse.

Mas existe algo que já está dado: a posição política de Chico Mendes mudou de patamar.

A partir de agora, sua atuação estará muito mais conectada às articulações em Brasília. E isso coloca sobre seus ombros uma cobrança que talvez seja ainda maior do que a própria expectativa de eventual exercício do mandato.

O Sertão vai querer saber o que essa proximidade com o poder federal poderá produzir.

E essa cobrança chega justamente depois de uma sequência de discussões sobre a distribuição territorial de instituições públicas de educação.

Um dos episódios mais recentes envolve a criação do Instituto Federal do Sertão Paraibano. O projeto aprovado pelo Congresso e sancionado pelo presidente Lula criou uma nova instituição federal a partir do desmembramento do IFPB, estabelecendo Patos como sede da Reitoria, enquanto os campi de Cajazeiras, Sousa, Catolé do Rocha, Itaporanga, Princesa Isabel e Santa Luzia integram a nova estrutura. 

Aqui é preciso fazer uma distinção importante: não se trata simplesmente da transferência de um campus de Cajazeiras ou Sousa para Patos. O que foi definido foi a sede administrativa da nova autarquia federal. A estrutura regional continua distribuída por sete municípios.

Mesmo assim, a escolha de Patos como sede da Reitoria produziu naturalmente uma discussão sobre representação institucional e equilíbrio regional.

E é justamente nesse ambiente que ressurge uma antiga reivindicação: a criação de uma Universidade Federal do Sertão a partir do desmembramento dos campi sertanejos da UFCG.

A ideia não nasceu agora.

Documentos da própria UFCG registram que a proposta de criação da Universidade Federal do Sertão já era discutida desde 2009, envolvendo os campi de Cajazeiras, Patos, Pombal e Sousa. 

Em 2026, o assunto voltou ao debate regional. O reitor da UFCG, Camilo Farias, adotou posição cautelosa e defendeu que eventual desmembramento seja discutido internamente com a comunidade acadêmica. 

Portanto, a promessa atribuída a Chico Mendes de trabalhar pela criação da Universidade Federal do Sertão não representa uma pauta que possa ser resolvida apenas por articulação política. Existe um caminho institucional, acadêmico, legislativo e orçamentário a ser percorrido.

E é justamente aí que começa o verdadeiro teste.

Uma liderança com trânsito em Brasília pode abrir portas. Pode conversar com ministérios, parlamentares, governo federal e dirigentes de instituições. Mas abrir portas é diferente de entregar resultados.

A eventual criação de uma universidade federal exige estudos de viabilidade, projeto institucional, aprovação legislativa, definição de estrutura administrativa, orçamento e posterior implementação. A própria história da proposta mostra que o tema já atravessou diferentes momentos sem chegar à concretização.

É por isso que o novo papel de Chico Mendes precisa ser observado menos pelo discurso e mais pelos resultados.

O primeiro desafio será transformar a condição de primeiro suplente em capacidade efetiva de articulação regional.

O segundo será evitar que a pauta do Sertão seja reduzida a uma disputa entre cidades.

Patos, Cajazeiras, Sousa, Pombal e os demais municípios não precisam necessariamente disputar entre si para defender investimentos federais. A nova configuração do IF Sertão Paraibano, inclusive, demonstra que é possível construir uma estrutura regional distribuída, ainda que a sede administrativa esteja concentrada em um município. 

A discussão sobre uma universidade federal poderia seguir lógica semelhante: mais importante do que a disputa pelo endereço da placa seria discutir qual estrutura universitária melhor atende ao conjunto do Sertão e qual modelo tem condições reais de ser implantado e financiado.

É aí que a atuação política ganha relevância.

Chico Mendes chega a Brasília carregando uma reivindicação regional antiga e, ao mesmo tempo, uma oportunidade política nova.

Não basta representar o Sertão no discurso.

Será preciso transformar presença em articulação, articulação em projeto e projeto em resultado.

O primeiro suplente de João Azevêdo passa, assim, a ocupar uma posição singular: ainda não é senador, mas está politicamente mais próximo do Senado; não possui mandato federal próprio, mas terá acesso a uma rede institucional nacional; e não controla sozinho a agenda do governo federal, mas poderá tentar influenciá-la.

A grande pergunta para o Alto Sertão, portanto, não é simplesmente quando Chico Mendes poderá sentar na cadeira do Senado.

É outra.

O que o Sertão poderá conquistar enquanto Chico Mendes estiver a poucos passos de Brasília?

A resposta dependerá menos da fotografia ao lado de autoridades e mais da capacidade de transformar reivindicações históricas em projetos viáveis, recursos assegurados e instituições efetivamente instaladas.

Porque, depois de tantos anos discutindo perdas e reivindicando espaço, o Sertão precisa de algo mais difícil do que promessa: precisa de resultado.

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista. REG. PROF. FENAJ 4407/PB | API/PB 3072