Hugo Motta é Lula e Lula é Hugo Motta. Pelo menos durante a temporada eleitoral na Paraíba.

Depois de setores da esquerda passarem meses criticando o presidente da Câmara dos Deputados, apontando seu alinhamento com o Centrão e classificando suas decisões como prejudiciais aos interesses populares, o cenário mudou. O deputado paraibano declarou apoio à reeleição do presidente Lula e apareceu em ato político usando boné vermelho, bandeiras petistas e o discurso de que Lula foi o presidente que mais fez pela Paraíba e pelo Nordeste.

Agora, aquilo que antes seria denunciado como aliança com as velhas oligarquias recebe um nome mais bonito: “costura política”.

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Hugo Motta faz o L

A aproximação não está escondida. Hugo Motta utiliza publicamente sua relação com Lula para fortalecer seu grupo na Paraíba, ampliar a influência do Republicanos e impulsionar a candidatura de seu pai, Nabor Wanderley, ao Senado.

Reportagem publicada pela Folha de S.Paulo aponta que Motta vem associando investimentos federais à parceria com Lula e usando essa relação para ampliar seu poder estadual. A mesma publicação registra que o Republicanos chegou à marca de 50 prefeitos sob sua liderança na Paraíba.

É uma estrutura política considerável. Hugo preside a Câmara, Nabor disputa o Senado, a avó Francisca Motta pretende deixar a Assembleia Legislativa e a neta Olívia Motta aparece como sucessora do grupo na disputa estadual.

Pode chamar de renovação quem quiser. A coluna chama de continuidade familiar do poder.

O que está confirmado — e o que é bastidor

Está confirmado que Hugo Motta declarou apoio a Lula. Também está documentado que o deputado articula o fortalecimento de seu grupo político e trabalha pela candidatura do pai ao Senado.

O que não está comprovado publicamente é que Lula tenha fechado formalmente um acordo para apoiar a permanência de Hugo Motta na Presidência da Câmara em 2027 como pagamento pelo apoio recebido na Paraíba.

Essa possibilidade circula como leitura política e faz sentido dentro da lógica de reciprocidade existente em Brasília. Mas, sem uma declaração direta ou documento que confirme o acerto, não pode ser apresentada como negócio já fechado.

Ainda assim, ninguém precisa ser especialista para perceber que Lula necessita de uma presidência da Câmara capaz de pautar projetos do governo, enquanto Hugo Motta precisa do Palácio do Planalto para fortalecer sua estrutura eleitoral na Paraíba.

Na política brasileira, o abraço quase nunca é gratuito: normalmente, cada braço já conhece o preço da reciprocidade.

O coronelismo que interessa

A esquerda costuma denunciar o coronelismo nordestino, as oligarquias familiares e as estruturas que concentram empregos, recursos e influência política nas mãos de poucos grupos.

A crítica é legítima. Em muitas cidades, famílias politicamente dominantes constroem redes de dependência que atravessam prefeituras, câmaras municipais, secretarias e órgãos estaduais. O eleitor mais vulnerável pode acabar pressionado pelo medo de perder emprego, contrato, benefício ou acesso ao serviço público.

Mas esses votos, frequentemente chamados de “votos de cabresto” durante os discursos, tornam-se desejados quando chegam as eleições. As estruturas antes denunciadas passam a ser tratadas como importantes bases regionais.

É nesse momento que o “coronel” deixa de ser problema e vira aliado estratégico.

Os antigos críticos vão defender?

A pergunta agora é simples: como reagirão os militantes que passaram meses atacando Hugo Motta?

Muitos encontrarão justificativas. Dirão que é preciso derrotar a direita, ampliar a governabilidade, proteger a democracia ou construir uma frente política mais ampla. Outros afirmarão que diferenças ideológicas precisam ser deixadas de lado em nome de um projeto maior.

Esses argumentos fazem parte da política. O problema está em mudar completamente a régua moral conforme o aliado da vez.

Se Hugo Motta era responsável por pautas consideradas ruins para o povo, seu apoio a Lula não apaga o histórico. Se representa uma velha estrutura familiar de poder, vestir um boné vermelho não o transforma numa liderança popular de esquerda.

E, se a aliança for legítima, os seus defensores precisam assumi-la com clareza, em vez de tentar convencer o eleitor de que pragmatismo virou princípio ideológico.

Uma parceria conveniente

Hugo Motta oferece capilaridade eleitoral, prefeitos, vereadores, lideranças e uma estrutura capaz de levar a campanha de Lula ao interior da Paraíba. Lula oferece prestígio, investimentos federais e a força política da Presidência da República.

Um precisa do outro.

Isso não significa que exista ilegalidade na aliança. Partidos diferentes podem construir acordos e apoiar projetos comuns. A crítica é à incoerência de quem demoniza determinada liderança num dia e, no outro, exige que a militância a receba como companheira.

O discurso contra as oligarquias dura até o momento em que os votos controlados por essas mesmas oligarquias entram na planilha eleitoral.

A cena que parecia improvável já apareceu: Hugo Motta usando vermelho, defendendo Lula e participando da campanha petista na Paraíba. Não será surpresa encontrar militantes da esquerda dividindo carreata com o grupo que criticavam até ontem.

No Brasil, quando a eleição se aproxima, adversários descobrem afinidades, inimigos viram parceiros e contradições ganham o delicado nome de “costura política”.

O eleitor só não pode ser obrigado a fingir que não percebeu.

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista. REG. PROF. FENAJ 4407/PB | API/PB 3072