Se houve um momento da coletiva de Chico Mendes em Cajazeiras capaz de revelar os bastidores mais delicados da eleição, foi quando o assunto deixou as candidaturas e entrou no terreno da fidelidade política dentro da própria base governista.

O deputado foi provocado sobre o comportamento de aliados durante o processo eleitoral e fez críticas a lideranças que, segundo seu relato, teriam adotado uma postura diferente daquela defendida pelo grupo oficialmente.

Entre as expressões utilizadas está uma que chama atenção pelo simbolismo político: os chamados “santinhos em branco”.

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A expressão é usada para definir materiais de campanha nos quais determinados candidatos da chapa majoritária deixam de aparecer, permitindo que lideranças locais apresentem outros nomes ao eleitorado sem necessariamente romper formalmente com a aliança.

Segundo o relato atribuído a Chico Mendes, ele teria se recusado a adotar esse tipo de estratégia e criticado deputados e prefeitos que teriam colocado nomes de candidatos adversários em seus materiais de campanha para atender interesses eleitorais locais.

A crítica não surge completamente isolada do histórico político recente de Chico.

Em abril, o deputado já havia reafirmado publicamente sua permanência no PSB e sua fidelidade ao grupo político de João Azevêdo e Lucas Ribeiro. Na ocasião, também foi descrito como uma das principais lideranças municipalistas da base governista no Sertão. 

Posteriormente, em agosto, Chico Mendes foi confirmado como primeiro suplente de João Azevêdo na chapa para o Senado. O registro eleitoral também confirma sua condição de primeiro suplente na candidatura de João Azevêdo pelo PSB. 

É justamente nesse ponto que a declaração ganha dimensão política.

Chico Mendes parece querer estabelecer uma diferença entre estar formalmente em uma aliança e efetivamente trabalhar por ela.

A questão é relevante porque, em eleições proporcionais e majoritárias, as alianças não são construídas apenas nos palanques. Elas passam por prefeitos, deputados, lideranças locais, estruturas partidárias e, principalmente, pela capacidade de cada grupo entregar apoio eleitoral nos diferentes municípios.

E o Sertão conhece bem essa lógica.

Durante a própria campanha de 2026, houve casos públicos de lideranças integrantes ou próximas da base governista que declararam apoio a candidatos diferentes daqueles defendidos oficialmente por outros integrantes do mesmo campo político. O episódio envolvendo o deputado Jutay Meneses, por exemplo, provocou manifestação pública de Chico Mendes sobre a relação dos parlamentares da base com João Azevêdo. 

Portanto, quando Chico fala em fidelidade, não está tratando apenas de uma questão de propaganda eleitoral.

Está falando de confiança política.

O problema é que fidelidade, na política, raramente termina no dia da eleição.

Ela costuma reaparecer quando começam as discussões sobre composição de governo, espaços administrativos, apoio a futuras candidaturas, indicações e novas alianças.

É justamente aí que a declaração de Chico Mendes ganha uma segunda leitura.

Não há elementos suficientes para afirmar que cargos públicos serão distribuídos como recompensa por fidelidade ou que exista uma negociação específica nesse sentido. Isso seria transformar uma interpretação em fato.

Mas é perfeitamente possível observar que, no ambiente político, apoio eleitoral e confiança entre lideranças costumam influenciar as relações posteriores.

E Chico parece ter feito questão de deixar registrado quem esteve de um lado e quem preferiu preservar interesses locais durante a eleição.

A mensagem é especialmente relevante porque o próprio parlamentar construiu sua posição política recente em torno da permanência no PSB e do alinhamento com o grupo de João Azevêdo e Lucas Ribeiro. Reportagens publicadas antes da eleição destacaram justamente essa postura como elemento central de sua estratégia política. 

O ponto mais interessante, portanto, não está apenas nos “santinhos em branco”.

Está no conceito de reciprocidade política.

Quem pede fidelidade aos aliados também está, implicitamente, estabelecendo um parâmetro para medir quem merece confiança nas próximas etapas do projeto.

E essa discussão certamente não termina com a apuração das urnas.

A eleição passou. Os votos foram contabilizados. João Azevêdo e Veneziano Vital do Rêgo foram eleitos para o Senado pela Paraíba em 4 de outubro de 2026.

Agora começa outra fase.

É justamente no pós-eleição que muitas alianças são testadas de verdade.

Para Chico Mendes, a fidelidade demonstrada durante a campanha parece ter um valor político próprio. Para os demais integrantes da base, resta a necessidade de explicar suas escolhas e mostrar que eventuais movimentos diferentes não significaram ruptura com o projeto coletivo.

No Sertão, onde relações pessoais e políticas frequentemente caminham lado a lado, esse tipo de cobrança pode produzir efeitos que vão muito além de um simples material de campanha.

O “santinho em branco” pode até desaparecer depois da eleição. A memória política de quem estava nele, ou de quem ficou de fora, costuma durar muito mais.

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista. REG. PROF. FENAJ 4407/PB | API/PB 3072