As urnas de 2026 deixaram mais do que vencedores e derrotados. Elas produziram um novo desenho da geografia política do Alto Sertão paraibano.

Em Cajazeiras, o resultado da disputa para deputado estadual mostrou uma característica que merece atenção: o eleitorado urbano não se concentrou em uma única liderança.

De acordo com o detalhamento do mapa de votação apresentado na coletiva, Zé Aldemir apareceu à frente na zona urbana, com 8.123 votos, seguido por Júnior Araújo, com 7.851, e Nil Mendes, com 7.107.

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São números próximos o suficiente para revelar uma cidade politicamente fragmentada entre diferentes grupos.

A fotografia muda quando se observa a zona rural.

Foi justamente fora do perímetro urbano que Júnior Araújo ampliou sua vantagem, alcançando 2.123 votos, enquanto seus principais concorrentes ficaram pouco acima da marca de mil votos. O resultado ajuda a compreender por que a votação total do município terminou favorecendo o deputado, que conquistou seu terceiro mandato na Assembleia Legislativa.

Os dados oficiais do pleito confirmam a reeleição de Júnior Araújo, com 33.850 votos em toda a Paraíba. Nil Mendes também foi eleita para a ALPB, com 42.488 votos. 

E é justamente Nil Mendes que representa uma das histórias mais significativas dessa eleição.

A candidata do PSB alcançou 42.488 votos em todo o Estado, votação que lhe garantiu uma cadeira na Assembleia Legislativa. O resultado oficial do TRE-PB confirma o número e sua eleição pelo quociente partidário.

A força da votação ganha ainda mais significado quando considerada a duração relativamente curta da campanha. A candidatura entrou no cenário eleitoral com pouco tempo para consolidar uma presença própria em comparação com nomes que já acumulavam anos de exposição política.

A interpretação de que parte desse desempenho decorreu da transferência de força eleitoral do grupo liderado por Chico Mendes é uma leitura política que circula no cenário regional. Mas é importante separar a percepção política dos dados objetivos: a votação comprova o resultado, enquanto a dimensão exata da transferência de votos exige análise eleitoral mais aprofundada.

Ainda assim, o fato político é incontestável: Nil Mendes saiu das urnas como uma nova deputada estadual da Paraíba.

E isso muda a equação de Cajazeiras.

A cidade que antes tinha três nomes diretamente associados à representação estadual, em diferentes momentos e configurações políticas, chega ao próximo ciclo com Júnior Araújo e Nil Mendes ocupando cadeiras na Assembleia. A imprensa local também registrou que Cajazeiras garantiu duas cadeiras na ALPB após o resultado de 2026.

Mas talvez o dado mais interessante esteja do outro lado da BR-230.

Sousa.

A cidade, historicamente importante na política sertaneja, terminou o processo eleitoral diante de uma questão incômoda: qual será o peso político de Sousa no novo mapa de representação estadual e federal?

No resultado municipal, Sousa apresentou votações expressivas para diversos candidatos, mas os nomes mais votados localmente não necessariamente se converteram em representantes eleitos diretamente pela cidade.

No caso da disputa estadual, Lindolfo Pires liderou a votação em Sousa, com 10.687 votos, mas não aparece entre os 36 deputados estaduais eleitos em 2026. Júnior Araújo, por exemplo, teve 667 votos no município e foi eleito pelo conjunto de sua votação estadual. 

Na disputa federal, Fábio Tyrone foi o mais votado em Sousa, com 24.158 votos, mas também não aparece entre os eleitos para a Câmara dos Deputados. 

É daí que surge o chamado “vácuo político”.

Não significa que Sousa tenha deixado de ter influência. Tampouco significa que a cidade esteja sem acesso institucional ao governo estadual ou federal. Significa algo mais específico: o resultado de 2026 não produziu uma representação parlamentar diretamente identificada com Sousa proporcional ao peso político e eleitoral que a cidade historicamente exerce no Vale do Sousa.

E essa diferença merece ser observada.

Enquanto Cajazeiras conseguiu eleger dois representantes para a Assembleia, Sousa viu seus principais nomes locais ficarem pelo caminho na disputa proporcional.

A comparação entre as duas cidades não deve ser tratada como uma guerra regional. Até porque a política do Sertão não termina na divisa municipal. Deputados eleitos recebem votos em dezenas de municípios e constroem suas bases muito além de suas cidades de origem.

Mas existe uma consequência política inevitável.

Quando uma cidade não consegue transformar sua força eleitoral em representação parlamentar direta, abre-se espaço para que outras cidades e outros grupos ocupem esse espaço de articulação regional.

E é exatamente esse movimento que pode estar começando a aparecer no Alto Sertão.

Cajazeiras sai da eleição com duas cadeiras estaduais e uma reorganização importante das forças políticas locais. Nil Mendes chega à Assembleia com uma votação expressiva, enquanto Júnior Araújo mantém seu espaço institucional. Zé Aldemir, apesar da expressiva votação em Cajazeiras, não conquistou uma cadeira na ALPB.

Sousa, por sua vez, precisará avaliar o que aconteceu com sua representação política e, principalmente, como pretende reorganizar suas forças para os próximos ciclos eleitorais.

Porque eleição não é apenas sobre quem ganhou.

É também sobre quem ficou sem voz institucional, quem ocupou o espaço deixado e quem terá capacidade de transformar mandato em influência regional.

O resultado de 2026 não encerra essa disputa.

Na verdade, pode ter apenas iniciado uma nova.

E, no mapa político do Alto Sertão, Cajazeiras parece ter conseguido preservar uma estrutura parlamentar relevante, enquanto Sousa entra no próximo ciclo diante de uma pergunta que não poderá ser ignorada: onde estará sua próxima liderança capaz de transformar votos em mandato?

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista. REG. PROF. FENAJ 4407/PB | API/PB 3072