A quadrilha junina Lageiro Seco, fundada em 1947 no bairro do Roger, em João Pessoa, Paraíba, celebra sua rica trajetória de quase 80 anos, reivindicando o título de mais antiga do Brasil ainda em atividade. Este grupo cultural, que anualmente anima as festividades de São João na Paraíba, mantém viva uma tradição familiar e um legado de inclusão.

Atualmente, a Lageiro Seco conta com aproximadamente 124 participantes, perpetuando o legado de seu fundador, Luiz Ferreira da Silva, que faleceu em dezembro de 2025, aos 89 anos. A iniciativa, que começou com Luiz e seu irmão, sempre se destacou pela valorização da cultura popular e pela abordagem de temas de inclusão em seus enredos.

Um dos pilares do grupo é o significativo espaço concedido à atuação feminina, reforçando seu compromisso com a diversidade e a participação igualitária.

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Em 2026, essa tradição de quase oito décadas alcança um novo patamar de reconhecimento, com a expectativa de certificação como “Ponto de Cultura”, uma iniciativa do Ministério da Cultura destinada a apoiar entidades sem fins lucrativos que promovem a cultura brasileira.

O g1 conversou com Luciano Dantas, atual coordenador da Lageiro Seco, que compartilhou detalhes sobre as origens do grupo, sua evolução ao longo de quase 80 anos e os fundamentos que embasam a reivindicação de ser a quadrilha junina mais antiga do Brasil em atividade.

A gênese da Lageiro Seco

A história da Lageiro começou muito antes de ter esse nome, quando Luiz Ferreira da Silva tinha apenas 12 anos de idade. Naquela época, a iniciativa surgiu ao lado do irmão mais velho, Graciano Ferreira da Silva, que já coordenava uma Lapinha, uma espécie de manifestação cultural ligada às festividades natalinas.

Conforme relatado por Luciano Dantas, a visão era criar uma expressão cultural mais organizada, que transcendesse o período natalino e abraçasse outras celebrações ao longo do ano, como o São João.

"No início, era apenas Seu Graciano. Ele já possuía a Lapinha muito antes da quadrilha. Era um grupo composto exclusivamente por mulheres, sendo ele o único homem. Posteriormente, convidou seu irmão, Seu Luís, que tinha apenas 12 anos na época", detalhou Dantas.

Os relatos de Luiz Ferreira, compartilhados por Luciano ao g1, indicam que a formação da quadrilha junina ocorreu em um contexto social onde homens e mulheres ainda hesitavam em se apresentar juntos. O grupo Lageiro Seco, desde cedo, desafiou esse paradigma.

"As mulheres relutavam em dançar com os homens, alegando que eles apenas queriam 'brincar'. Havia um desejo genuíno de organização e de formar um grupo cultural sério", explicou Luciano Dantas, evidenciando o pioneirismo da Lageiro Seco.

Com o aumento de participantes e a necessidade de uma estrutura mais formal, a quadrilha passou por um processo de consolidação. Contudo, faltava um nome que capturasse a identidade forjada desde seus primórdios. Esse detalhe, que hoje é uma das marcas registradas da Lageiro Seco, já era uma preocupação dos fundadores nos primeiros anos.

"Foi Seu Luís quem sugeriu o nome Lageiro Seco. Ele recordava-se do lajeiro, uma grande pedra comum no interior do estado, no Sertão. Não havia um significado específico; ele simplesmente se lembrou do termo e desejou criar algo com essa sonoridade", narrou Luciano.

Ao longo das décadas, o nome Lageiro Seco conquistou reconhecimento tanto na Paraíba quanto em outras regiões do Brasil. Para os membros atuais, manter o nome original é uma forma essencial de preservar a identidade e a história do grupo.

"Podemos afirmar que o nome 'pegou'. A Lageiro Seco é uma quadrilha amplamente conhecida na cidade, no estado e em diversas partes do Brasil. Já nos apresentamos em vários estados, e hoje nossa história é reconhecida por muitos. Manter o nome criado pelo nosso fundador tem um significado imenso para nós, é um legado gigante que almejamos transmitir às futuras gerações", enfatizou o coordenador.

O reconhecimento da quadrilha mais antiga

Em relação à autoafirmação da Lageiro Seco como a quadrilha junina mais antiga do Brasil, Luciano Dantas pontuou que "a própria história de Seu Luiz já explica tudo", referindo-se à idade do fundador e ao período em que ele começou a conceber o grupo.

Além disso, essa reivindicação é corroborada pela Federação das Entidades das Quadrilhas Juninas da Paraíba (Fequajune-PB), que ratificou a Lageiro Seco como a quadrilha mais antiga em atividade no país. Isso sublinha que a trajetória do fundador é anterior até mesmo à criação da própria federação estadual.

Em entrevista ao g1, Genilson Félix, presidente da Fequajune-PB, reiterou o título e fez questão de enfatizar a relevância de Seu Luiz. "A Lageiro Seco é, de fato, a quadrilha mais antiga do Brasil em atividade. São mais de 70 anos ininterruptos dedicados ao movimento junino, desde a época das palhoças e das quadrilhas infantis", afirmou Félix.

Ele ainda mencionou que "um de nossos diretores da Fequajune-PB, o Sr. Edson Pessoa, diretor financeiro, participou por muito tempo da junina infantil, evidenciando a longevidade e o impacto do grupo", reforçando a profundidade histórica da Lageiro Seco.

Legado e homenagens a Luiz Ferreira da Silva

A identidade da Lageiro Seco é intrinsecamente ligada à vida de Luiz Ferreira da Silva, figura central na construção da quadrilha ao longo de décadas. Mesmo em idade avançada, Luiz manteve sua participação ativa na rotina do grupo, acompanhando-o desde sua fundação em 1947 até seu falecimento em 2025.

"Desde que me juntei à quadrilha, em 1999, Seu Luís estava presente em todos os ensaios. Ele acompanhava viagens mais curtas, auxiliava os componentes com lanches e passagens. Era uma pessoa verdadeiramente maravilhosa", recordou Luciano Dantas, emocionado.

Sua presença contínua o transformou em uma referência e figura paterna para inúmeras gerações de dançarinos. Em um gesto de carinho, a quadrilha junina conseguiu homenagear seu criador ainda em vida. No espetáculo de 2024, intitulado "João", o próprio Luiz Ferreira da Silva fez uma emocionante entrada no encerramento.

"Se você passar um dia em um ensaio da quadrilha e conversar com os componentes, todos lhe dirão que Seu Luís era como um pai para todos nós", complementou Luciano.

Luciano Dantas também confirmou que, em 2026, ano em que a Lageiro Seco participa novamente das competições municipais e estaduais de quadrilhas juninas na Paraíba, uma nova homenagem ao fundador foi incorporada às apresentações. Essas homenagens foram um ponto alto dos espetáculos.

Nas competições estaduais deste ano, mesmo com as emotivas homenagens a Seu Luiz, a quadrilha conquistou o segundo lugar. O evento reuniu 29 grupos da Paraíba, que se apresentaram na orla de João Pessoa nesta semana, demonstrando a força e a resiliência da Lageiro Seco.

Novos horizontes e o reconhecimento como Ponto de Cultura

Nesse contexto de preservação de uma tradição de 78 anos, a Lageiro Seco também mira novos horizontes. Segundo Luciano Dantas, o grupo está prestes a obter a certificação de "Ponto de Cultura", um importante incentivo concedido pelo Ministério da Cultura a entidades culturais.

"Estamos muito próximos de nos tornar um Ponto de Cultura. Apenas aguardamos a oficialização, que esperamos que ocorra em julho. Toda a documentação necessária já foi encaminhada, e temos grande expectativa de que esse reconhecimento se concretize", salientou Dantas.

Enquanto aguarda essa importante certificação, a quadrilha junina Lageiro Seco continua a desempenhar seu papel fundamental de manter vibrante uma das mais tradicionais manifestações da cultura popular paraibana, perpetuando a história iniciada pelos irmãos Luiz e Graciano Ferreira da Silva, e transmitida por gerações desde 1947.

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista REG. PROF. FENAJ - 4407/PB | API/PB 3072