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O Dia Mundial do Brincar, comemorado na última quarta-feira (28) e com atividades estendidas até domingo (31) em todo o Brasil, reacendeu o debate sobre a importância vital do brincar para o desenvolvimento humano, especialmente na infância. A pesquisadora Sarah Menezes Rocha, conselheira da Aliança pela Infância, enfatizou à Agência Brasil que o brincar não é apenas uma distração, mas um direito humano fundamental, garantido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e pela Convenção sobre os Direitos da Criança da Organização das Nações Unidas (ONU), essencial para a criança se expressar, elaborar sentimentos e compreender o mundo.
Sarah Menezes Rocha, professora universitária e especialista no tema, é mãe de uma bebê de 1 ano e atua como formadora de docentes. Ela é uma voz ativa na Aliança pela Infância, um movimento internacional dedicado à defesa da infância, que há duas décadas organiza as celebrações da data no Brasil.
Em um manifesto divulgado nas redes sociais na semana passada, a Aliança pela Infância sublinhou que o brincar constitui a principal forma de a criança se expressar, processar sentimentos e apreender o mundo ao seu redor. A entidade fez um alerta crucial sobre a necessidade de reservar tempo para as brincadeiras em um cenário cada vez mais dominado por telas digitais.
“É no brincar livre que crianças se desenvolvem, criam vínculos e se encontram com o outro, desenvolvendo a sua humanidade”, afirmou a organização em seu texto. “Brincar é a maneira da criança participar da sociedade, é expressão cidadã e democrática”.
As celebrações do Dia Mundial do Brincar, neste ano, estenderam-se até o domingo (31). A Aliança pela Infância disponibilizou em seu site uma abrangente agenda nacional, com diversas atividades em escolas, coletivos, organizações e comunidades por todo o país, incentivando a sociedade a se engajar ativamente na defesa desse direito inalienável.
A essência do brincar e sua importância
Questionada pela Agência Brasil sobre a definição e importância do brincar, Sarah Menezes Rocha explicou que ele é a própria linguagem da infância. “É a forma como a criança se relaciona com o mundo, com o outro e consigo mesma”, pontuou a especialista.
Ela ressaltou que, ao brincar, a criança não está meramente preenchendo o tempo ou se distraindo. Pelo contrário, está ativamente experimentando o ambiente, exercitando a imaginação, formulando hipóteses, vivenciando diferentes emoções, construindo laços e traduzindo a cultura.
“Temos, no Brasil, um brincar tão diverso. Em cada região, há um tipo de brincadeira peculiar”, comentou Sarah. Ela enfatizou que as crianças são também produtoras de cultura, contribuindo para a vasta riqueza cultural brasileira.
O brincar na formação humana
Sobre uma possível idade limite para o brincar, Sarah Menezes Rocha foi categórica: “Não. O brincar nasce da infância, mas a gente carrega ele na nossa vida para sempre. Enquanto adultos, cabe a nós ter essa sensibilidade de poder acessar essa infância dentro de nós. A criança que a gente foi um dia está sempre conosco.”
A pesquisadora reiterou a natureza fundamental do brincar na formação humana. “O brincar é esse espaço privilegiado de construção do ser humano. Através da nossa brincadeira, a criança aprende a negociar, a esperar, a lidar com diferentes situações e conflitos. O brincar é a centelha da formação humana”, concluiu.
O brincar no currículo escolar
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento do Ministério da Educação que estabelece o que os estudantes devem aprender, inclui o brincar como parte integrante do currículo da educação infantil. Sarah Menezes Rocha, representando a Aliança pela Infância, reconhece a existência de trabalhos “maravilhosos” em escolas públicas e espaços não escolares nesse nível.
Contudo, ela observa que, no ensino fundamental, ainda prevalece a percepção de que a criança “deixou de ser criança”. Nesse contexto, as disciplinas tradicionais frequentemente ocupam o espaço que antes era dedicado e valorizado à brincadeira. “O brincar não deve ser periférico no currículo. Ele precisa ser reconhecido”, defendeu.
Existe um risco significativo, segundo a especialista, de uma escolarização precoce da infância, com a antecipação de conteúdos e a imposição de cobranças avaliativas excessivas, o que prejudica o desenvolvimento. “A criança precisa desse espaço da brincadeira, inclusive, no ensino fundamental”, reforçou.
Desafios e incentivos ao brincar
Ao abordar a preparação das escolas para incentivar o brincar, Sarah Menezes Rocha mencionou a intensa pressão por desempenho que permeia as instituições de ensino. “Vivemos uma antecipação da lógica produtivista na infância, querendo que as crianças também sejam 'seres produtores'. Até mesmo crianças bem pequenas, muitas já estão convivendo com excesso de atividades dirigidas, de metas, de estímulos”, lamentou.
Em contrapartida, essas crianças têm pouco tempo para experiências de brincar livre. A pesquisadora enfatizou que esse problema transcende o ambiente escolar, sendo um reflexo da comunidade. “Nós precisamos de um compromisso comunitário e social com o brincar. Estamos falando de ações no ambiente escolar e familiar, mas também de políticas públicas”, declarou.
Para incentivar o brincar, Sarah Menezes Rocha sugeriu diversas ações. É fundamental garantir tempos menos acelerados para as crianças, tanto no contexto familiar quanto escolar. Deve-se valorizar as experiências ao ar livre, ocupando espaços seguros na cidade como praças e parques, e cobrando das autoridades a segurança desses locais.
Além disso, a especialista recomendou a promoção de brincadeiras coletivas em casa e em condomínios, e a inclusão constante das crianças nas decisões. “É preciso ampliar o espaço de escuta, porque as crianças precisam ser ouvidas. Elas sabem dizer como que a gente pode abrir espaço para o brincar de forma livre”, concluiu. “O desenvolvimento humano, de forma saudável, ocorre quando a gente oportuniza os espaços para que a criança seja criança.”
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