O universo da sanfona, um símbolo intrínseco da cultura nordestina, vai muito além de suas melodias vibrantes. Na Paraíba, o instrumento se tornou um motor econômico, fomentando empregos e sustentando uma cadeia produtiva que abrange desde a fabricação e manutenção até a formação de novos músicos. Essa rica tapeçaria cultural e econômica é impulsionada por artesãos, luthiers, professores e artistas que transformam o fole em sustento e identidade.

A influência de ícones como Luiz Gonzaga é inegável na popularização da sanfona, mas o legado do instrumento se estende à criação de oportunidades. Músicos como o professor Caju, em João Pessoa, exemplificam essa transformação. Ele não apenas ensina a tocar, mas também atua como luthier, restaurando e mantendo sanfonas, profissão que exige um conhecimento técnico especializado e que ele mesmo descreve como um ofício de artesão.

Da restauração à fabricação: um mercado em expansão

O músico Amazan, de Campina Grande, é outro exemplo de como a paixão pela sanfona pode gerar empreendedorismo. Diante da dificuldade em encontrar quem reparasse seu instrumento, ele próprio aprendeu a arte da manutenção. Essa iniciativa evoluiu para a fundação de uma fábrica de sanfonas, que hoje inova em afinações e sistemas de eletrificação, adaptando o instrumento às preferências do público nordestino e facilitando a performance dos músicos.

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A fábrica de Amazan não apenas produz instrumentos, mas também gera empregos diretos, capacitando profissionais, muitos dos quais sem experiência prévia com a sanfona. O diretor de operações, Marckezan Azevedo, destaca o papel fundamental do SEBRAE Paraíba no suporte à estruturação do negócio, desde o planejamento financeiro até a formalização, permitindo que a empresa se tornasse referência nacional.

Profissionais como Sarayva Azevedo, afinador na fábrica de Amazan desde 2012, encontram na sanfona uma fonte de renda estável e a oportunidade de se tornarem especialistas em um ofício artesanal, ajustando cada nota para devolver o equilíbrio ao fole.

Economia criativa e o futuro da sanfona

Essas diversas atividades – professor, afinador, luthier, fabricante – convergem para o conceito de Economia Criativa, um setor que transforma conhecimento, tradição e identidade cultural em geração de empregos. Segundo dados da Firjan, a economia criativa brasileira movimentou mais de R$ 393 bilhões em 2023, com a cultura popular e a música despontando como segmentos fortes no Nordeste.

Regina Amorim, Gestora de Turismo e Economia Criativa do Sebrae Paraíba, ressalta como esses empreendimentos fortalecem um turismo autêntico, conectado à identidade local. Ela cita João Pessoa e Campina Grande como cidades criativas reconhecidas pela UNESCO, o que potencializa a interação com outros países e o desenvolvimento de negócios inovadores.

Apesar do potencial, Regina aponta desafios, como a necessidade de reconhecer a arte como profissão principal, e não secundária. Contudo, a força da economia criativa, muitas vezes descrita como a da abundância, sugere um futuro promissor.

Novas gerações e a perpetuação do legado

Em Campina Grande, Giulliano Santos, comerciante, luthier e revendedor de acordeons, também atua nessa cadeia produtiva, dedicando parte de sua renda e paixão ao conserto de instrumentos. Ele observa um interesse crescente de jovens músicos em se profissionalizar no acordeon, buscando transformar o instrumento em sua principal fonte de sustento.

Antônio Marques, de 14 anos e aluno do professor Caju, é um exemplo dessa nova geração. Já realiza apresentações remuneradas e sonha em ser um grande sanfoneiro, levando a música nordestina para todo o Brasil. Sua mãe, Kamila Soares, orgulha-se do caminho que o filho trilhou desde que se apaixonou pelo instrumento durante um passeio em Campina Grande.

Para Antônio, a sanfona representa um futuro promissor, uma ferramenta para expressar sua paixão e contribuir para a força cultural e econômica do Nordeste. Enquanto houver dedicação e talento, o instrumento continuará a se reinventar, ecoando sua importância para as futuras gerações.

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista REG. PROF. FENAJ - 4407/PB | API/PB 3072