Uma declaração feita pela prefeita Leninha Romão durante o evento de assinatura de ordens de serviço, realizado em 21 de agosto de 2026, colocou o projeto esportivo “Craques do Futuro” no centro de uma discussão que ultrapassa o futebol e alcança a transparência da administração pública de Uiraúna.

Segundo a própria prefeita, o projeto destinado ao atendimento de crianças e adolescentes foi alvo de uma denúncia anônima e recebeu uma fiscalização oficial. A revelação indica que, enquanto a Câmara Municipal mantém alinhamento com o Executivo e não apresenta oposição direta no plenário, questionamentos contra a gestão circulam por outros caminhos.

O fato de ter existido uma denúncia não comprova qualquer irregularidade. Da mesma maneira, a realização de uma fiscalização não significa que os responsáveis pelo projeto tenham cometido fraude, desvio ou falha administrativa.

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O problema está na ausência de informações públicas suficientes para que a população compreenda o que realmente aconteceu. Não foi esclarecido, no material disponível, qual órgão recebeu a denúncia, quando ocorreu a fiscalização, quais aspectos foram examinados e qual foi a conclusão do procedimento.

Também não está claro se o “Craques do Futuro” é executado diretamente pela Prefeitura, por associação, entidade esportiva ou mediante convênio. Essa informação é essencial para identificar quem administra os recursos, contrata profissionais, fornece materiais e responde pela prestação de contas.

Se existe transferência de dinheiro público, a gestão precisa informar o valor destinado ao projeto, a fonte orçamentária, o número do processo administrativo, as despesas realizadas e o total de crianças efetivamente atendidas.

A Prefeitura também deve apresentar os critérios de matrícula, a relação dos profissionais envolvidos, os locais e horários das atividades, a aquisição de uniformes e equipamentos e os resultados sociais alcançados.

Essas informações não servem apenas para responder aos denunciantes. Servem para proteger o próprio projeto e demonstrar que os recursos destinados às crianças estão sendo corretamente empregados.

Denúncia anônima não é prova de irregularidade, mas a melhor resposta de uma gestão pública não é o desabafo: são documentos abertos e prestação de contas completa.

O anonimato pode ser utilizado por adversários para provocar desgaste político, mas também constitui mecanismo legítimo de proteção para cidadãos que temem represálias. Por isso, a identidade do denunciante é menos importante do que a consistência dos fatos relatados e o resultado da apuração.

Classificar automaticamente toda denúncia como perseguição política seria um erro. Da mesma forma, utilizar a existência de uma fiscalização para insinuar culpa da gestão seria igualmente irresponsável.

O caminho correto é simples: apresentar o conteúdo administrativo que possa ser divulgado, identificar o órgão responsável pela inspeção e informar se foram encontradas falhas, emitidas recomendações ou determinadas correções.

Se a fiscalização concluiu que o projeto funciona regularmente, a divulgação do relatório fortalecerá a Prefeitura e enfraquecerá qualquer tentativa de exploração política sem fundamento. Caso tenham sido identificados problemas, a administração deverá explicar quais medidas foram adotadas para corrigi-los.

A oposição também precisa assumir responsabilidade pública. Se possui documentos ou indícios concretos sobre a utilização dos recursos, deve apresentá-los aos órgãos competentes e sustentar seus questionamentos abertamente.

Atuar apenas por meio de denúncias anônimas, sem expor uma posição política clara diante da população, mantém os vereadores afastados do debate e transfere aos órgãos de controle uma discussão que também deveria ocorrer na Câmara Municipal.

Os parlamentares têm competência para apresentar requerimentos, solicitar prestações de contas, convocar responsáveis e acompanhar a execução de políticas públicas. Mesmo que a denúncia tenha partido de um cidadão sem ligação política, o Legislativo deveria buscar esclarecimentos após a revelação feita pela prefeita.

O silêncio da Câmara torna-se ainda mais relevante porque a informação não foi divulgada por opositores, mas pela própria chefe do Executivo. A partir do momento em que Leninha Romão confirmou publicamente a fiscalização, o assunto passou a exigir uma resposta institucional.

Projetos esportivos voltados para crianças possuem importância social reconhecida. Podem contribuir para inclusão, disciplina, convivência comunitária e formação de jovens. Justamente por atenderem um público vulnerável, precisam funcionar com regras claras e controle rigoroso.

O debate não deve destruir o “Craques do Futuro” nem atingir as crianças atendidas. A fiscalização, quando realizada de forma técnica, pode identificar falhas, aprimorar procedimentos e aumentar a confiança da população.

Leninha Romão tem a oportunidade de transformar uma denúncia utilizada contra sua administração em demonstração de transparência. Para isso, precisa ir além do discurso e abrir as informações sobre o projeto.

Sem acesso aos documentos, não há elementos suficientes para afirmar que ocorreu irregularidade. Também não é possível concluir que a denúncia tenha sido completamente infundada.

A resposta está no processo de fiscalização. Enquanto o resultado permanecer desconhecido, o caso continuará sujeito a versões políticas, especulações e exploração eleitoral.

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista. REG. PROF. FENAJ 4407/PB | API/PB 3072