A crise política instalada em Marizópolis deixou de ser apenas uma disputa por cargos, espaços e influência dentro da base governista. Uma denúncia envolvendo o possível uso de recursos públicos em serviços realizados na residência particular do prefeito Lucas Gonçalves Braga, conhecido como Luquinha do Brasil, elevou o desgaste da gestão e colocou o governo diante de questionamentos que exigem respostas documentais.

A acusação foi apresentada pelo gesseiro Gildivam Melo dos Santos durante o programa Cidade Notícia, da Rádio Líder FM de Sousa, e repercutida inicialmente pelo Blog do Levi e por outros veículos paraibanos. Segundo o trabalhador, ele teria realizado serviços na residência do prefeito em 2021 e identificado pagamentos que, em sua versão, estariam vinculados à Prefeitura de Marizópolis.

Entre as movimentações citadas estaria uma transferência relacionada ao programa federal Criança Feliz. O denunciante sustenta que recursos públicos teriam sido utilizados para pagar parte dos trabalhos executados no imóvel particular do gestor. A acusação foi divulgada por veículos como o ClickPB e repercutida em diferentes portais estaduais.

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Trata-se de uma alegação grave. Se comprovado, o uso de dinheiro público em benefício de uma residência particular poderá provocar consequências administrativas, civis e eventualmente criminais. Até o momento, contudo, o material jornalístico consultado não apresenta decisão judicial ou conclusão oficial que reconheça a ocorrência do suposto desvio.

Gildivam também declarou que, depois de questionar pagamentos e cobrar valores que considerava pendentes, teria passado a sofrer intimidações e ameaças atribuídas por ele a pessoas ligadas ao prefeito e a integrantes de organizações criminosas. Essa parte do relato igualmente precisa ser investigada com rigor, pois não pode ser tratada como fato comprovado apenas com base no depoimento de uma das partes.

As reportagens sobre o caso mencionaram a suposta abertura de uma investigação pela Polícia Federal. Entretanto, não foi localizada manifestação oficial da instituição confirmando a instauração do procedimento, sua natureza, o número do processo ou os possíveis crimes investigados. Até que exista confirmação documental, a existência da investigação deve permanecer apresentada como informação divulgada pelos veículos que repercutiram a denúncia.

Após a primeira repercussão, Luquinha divulgou uma nota de esclarecimento negando que dinheiro público tenha sido utilizado em serviços realizados em sua residência. Segundo a versão apresentada por sua assessoria, Gildivam teria prestado serviços oficiais ao Município e recebido os valores correspondentes a essas atividades. A defesa do prefeito foi publicada pelo Blog do Levi.

A negativa, embora necessária, não encerra o caso. Diante da existência de alegações sobre transferências específicas, a resposta mais convincente não será produzida apenas por uma nota política. A Prefeitura precisa apresentar empenhos, ordens de serviço, notas fiscais, comprovantes de transferência, identificação dos serviços executados e a origem orçamentária de cada pagamento mencionado.

Quando a suspeita envolve dinheiro público e a residência particular de um prefeito, negar não basta: é preciso abrir os documentos e demonstrar, centavo por centavo, onde o recurso foi aplicado.

O caso surge em um momento de fragilidade política para Luquinha. O prefeito já enfrenta pressão do chamado G5, bloco de cinco vereadores que busca ampliar sua influência sobre as decisões administrativas e políticas do Executivo.

O discurso de que a atual gestão concedeu maior liberdade aos aliados, em contraste com a centralização atribuída por críticos ao período do ex-prefeito Zé Vieira, começa a revelar seu lado mais problemático. A autonomia da base transformou-se em disputa interna, pressão por espaços e questionamento aberto da autoridade do prefeito.

Dentro do grupo governista, há quem defenda uma reação mais dura, com a retirada de cargos ligados aos vereadores do G5. Essa saída, porém, aprofundaria outro problema: a percepção de que funções públicas são utilizadas como recompensa pela fidelidade política ou como punição por divergências.

Cargos públicos não podem ser instrumentos de chantagem entre Prefeitura e Câmara. Se os indicados do grupo trabalham corretamente e atendem ao interesse público, uma eventual exoneração por retaliação política seria questionável. Se não desempenham funções necessárias, sua permanência também precisa ser explicada.

Luquinha enfrenta, portanto, uma crise em duas frentes. De um lado, precisa responder a uma denúncia que atinge diretamente a integridade administrativa de seu governo. Do outro, demonstra dificuldade para comandar uma base que passou a testar publicamente seus limites.

A oposição poderia aproveitar esse desgaste para construir uma alternativa política, mas também apresenta sinais de desorganização. Na comemoração de aniversário do ex-prefeito Zé de Pedrinho, a ausência de Júnior do Peixe e a não inclusão de Jeferson Vieira foram interpretadas nos bastidores como demonstrações de distanciamento e falta de unidade.

Jeferson também recebe críticas por tentar introduzir no debate municipal lideranças externas, como Diego Tavares, cuja identificação eleitoral com Marizópolis é contestada por adversários. Essa ausência de unidade impede que a oposição transforme os problemas do governo em um projeto político consistente.

Ainda assim, as divisões oposicionistas não diminuem a responsabilidade do prefeito. A desorganização dos adversários não absolve a gestão, não responde à denúncia e não substitui a obrigação de transparência.

Luquinha chegou ao poder apresentando uma forma mais aberta de condução política. Agora precisa provar que abertura não significa ausência de comando e que os recursos públicos permanecem separados dos interesses particulares de qualquer agente político.

O caso exige investigação, transparência e contraditório. Não existe, até o momento, condenação contra o prefeito relacionada a essa denúncia. Mas também não é razoável exigir que a população aceite uma simples negativa quando existem acusações envolvendo pagamentos, serviços particulares e recursos vinculados a um programa social.

Se os documentos demonstrarem que todos os pagamentos corresponderam a serviços efetivamente prestados ao Município, a acusação perderá sustentação. Caso revelem incompatibilidades, a responsabilidade deverá ser apurada pelos órgãos competentes. O que Marizópolis não pode aceitar é que uma denúncia dessa gravidade desapareça no barulho das disputas políticas.

FONTE/CRÉDITOS: Wgleysson de Souza Registro profissional: FENAJ 4407/PB | API/PB 3072