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Pesquisadores da organização não governamental (ONG) ACT Promoção da Saúde divulgaram um estudo aprofundado que explora o conceito de blackwashing, uma estratégia pela qual corporações instrumentalizam a pauta do antirracismo para impulsionar suas marcas e maximizar lucros. A iniciativa visa desmistificar essa prática e suas implicações.
A publicação instiga uma reflexão crucial: o engajamento das empresas com as questões raciais é genuíno ou meramente estratégico?
Lançado no fim de junho e acessível na plataforma da ONG, o extenso levantamento de 133 páginas detalha diversas táticas de comunicação e marketing empregadas por organizações que adotam uma "aparência antirracista".
Desvendando o blackwashing
O termo blackwashing pode ser compreendido como uma "lavagem racial" ou "maquiagem de diversidade racial", análogo a conceitos como greenwashing (maquiagem ambiental) e pinkwashing (maquiagem da pauta LGBTQIA+). Ele denota uma superficialidade no compromisso com a diversidade.
Conforme a definição dos autores, blackwashing é uma "tática corporativa que instrumentaliza a causa antirracista para disfarçar a busca implacável por lucro", revelando uma apropriação indevida da luta por equidade.
A principal crítica a essa prática reside no fato de que, embora aparente engajamento com pautas de justiça racial, ela falha em abordar as iniquidades raciais de forma estrutural, limitando-se a ações superficiais.
Os pesquisadores identificaram e mapearam oito distintas manifestações do blackwashing, detalhando suas nuances e impactos:
- Divulgação seletiva: empresas destacam apenas avanços pontuais em questões raciais, omitindo áreas de estagnação ou retrocesso, configurando um claro "antirracismo de aparência".
- Políticas e reivindicações vazias: adoção de políticas apresentadas como transformadoras, mas que carecem de poder de implementação efetiva ou não possuem potencial real para alterar o status quo racial.
- Certificações duvidosas: uso de selos e certificações de terceiros para promover produtos ou a própria empresa como benéficos para a população negra, sem um escrutínio aprofundado.
- Apoio e parceria com ONGs cooptadas: estabelecimento de alianças com organizações da pauta racial, visando conferir credibilidade aos esforços corporativos de equidade, mesmo que estes sejam superficiais.
- Programas voluntários sem eficiência: implementação de iniciativas e códigos de conduta voluntários para promover a equidade racial no ambiente de trabalho, mas com mecanismos de aplicação frágeis e resultados questionáveis.
- Narrativas e discursos enganosos: desenvolvimento de campanhas de marketing que posicionam a corporação como um modelo antirracista, ignorando seu histórico real de ações ou omissões na área.
- Marcas enganosas: utilização estratégica de logotipos, influenciadores e porta-vozes para sugerir um posicionamento antirracista da marca, muitas vezes sem correspondência com suas práticas internas.
- Acessar e influenciar a formulação de políticas: busca por acesso e influência em fóruns de decisão sobre políticas de equidade racial, saúde e direitos da população negra, potencialmente moldando-as a seu favor.
A ausência de representatividade em posições de liderança
O estudo, ao evidenciar que a representatividade racial em certas empresas pode ser meramente superficial, corrobora seus achados com dados de um levantamento conduzido pelo Instituto Ethos, que analisou as 1,1 mil maiores corporações do Brasil.
Um dos pontos cruciais destacados pela publicação é a alarmante sub-representação de pessoas negras, especialmente mulheres, em cargos de liderança dentro dessas organizações.
Apesar de 55,5% da população brasileira se identificar como preta ou parda, essa parcela demográfica ocupa menos de 6% dos assentos nos conselhos administrativos das empresas e menos de 14% das posições executivas e de diretoria, evidenciando uma profunda disparidade.
Adicionalmente, o relatório aponta que, embora muitas organizações promovam iniciativas de diversidade, elas frequentemente falham em divulgar informações transparentes sobre a real composição racial de seus quadros de liderança.
Os autores do estudo concluem que o blackwashing não constitui um mero desvio de conduta, mas sim "uma peça de engrenagem que mantém a desigualdade racial funcional à acumulação", revelando sua natureza sistêmica.
Para os pesquisadores, o enfrentamento eficaz dessa prática exige mais do que simples denúncias isoladas ou apelos de cunho ético.
Eles enfatizam que "requer a construção de respostas capazes de incidir sobre a arquitetura que o torna possível", sugerindo a necessidade de intervenções estruturais profundas.
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