O Supremo Tribunal Federal (STF) está apurando a destinação de uma emenda parlamentar que teria beneficiado a produtora do filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. Há mais de um mês, oficiais de justiça buscam intimar o deputado federal Mário Frias (PL-SP) para que ele preste esclarecimentos sobre supostas irregularidades na alocação de verbas públicas a empresas ligadas à obra cinematográfica.

A investigação teve início com uma determinação do ministro Flávio Dino, que estabeleceu um prazo de cinco dias para que Frias respondesse a uma denúncia apresentada pela deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP). Amaral alega que Frias direcionou aproximadamente R$ 2 milhões para a Academia Nacional de Cultura (ANC), uma ONG presidida pela empresária Karina Ferreira da Gama.

Karina Ferreira da Gama também lidera outras organizações, como o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Go Up Entertainment, empresa responsável pela produção do filme biográfico sobre Bolsonaro, intitulado 'Dark Horse', com estreia prevista para setembro, pouco antes do primeiro turno das eleições.

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De acordo com os autos da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 854, oficiais de justiça tentaram notificar Frias em seu gabinete na Câmara dos Deputados em Brasília, em pelo menos três ocasiões entre março e abril. Em todas as tentativas, foram informados por assessores que o deputado estaria em São Paulo, impossibilitando o cumprimento da intimação.

Emendas parlamentares sob escrutínio

A denúncia de Tabata Amaral foi motivada por uma reportagem publicada em dezembro de 2025 pelo site The Intercept Brasil. A matéria apontou que a Academia Nacional de Cultura recebeu R$ 2,6 milhões provenientes de emendas parlamentares de deputados federais do Partido Liberal (PL), legenda de Bolsonaro. Além de Mário Frias, os deputados Bia Kicis e Marcos Pollon também foram mencionados.

Amaral levanta a hipótese de um grupo econômico com comando centralizado, o que poderia dificultar o rastreamento da aplicação de verbas públicas e, indiretamente, financiar produções de cunho ideológico.

Bia Kicis e Marcos Pollon já apresentaram seus esclarecimentos ao ministro Dino dentro do prazo. Pollon admitiu ter destinado R$ 1 milhão à Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo para viabilizar, através da Go Up Entertainment, a produção de uma série documental. No entanto, ele informou que o projeto não avançou devido à "incapacidade da entidade beneficiária de cumprir requisito técnico essencial" e que os recursos foram redirecionados para a área da saúde.

Pollon argumenta que a ausência de execução do projeto afasta qualquer possibilidade de desvio de finalidade ou irregularidade na aplicação dos recursos públicos.

Posicionamento de deputados e a investigação do STF

Bia Kicis confirmou a destinação de R$ 150 mil em recursos públicos para a mesma série documental mencionada por Pollon, também ressaltando que a indicação não foi executada. A deputada classificou a petição de Tabata Amaral como "maldosa", negando qualquer conexão entre sua emenda e o filme 'Dark Horse'.

Kicis refuta a alegação de que contribuiu com dinheiro público para o filme sobre Bolsonaro, considerando a tentativa de associar projetos distintos uma "erro metodológico e jurídico grave".

A deputada defende a análise do mérito social e econômico do projeto beneficiado por sua emenda, destacando o compromisso de seu mandato com a promoção da cultura e história nacional, e que a decisão foi política e pautada pela geração de valor para a sociedade.

A Advocacia da Câmara dos Deputados, consultada pelo ministro Flávio Dino, não identificou irregularidades processuais nas emendas de Mário Frias citadas por Tabata Amaral.

Revelações sobre o financiamento do filme

Em paralelo, uma reportagem do Intercept Brasil revelou que o senador Flávio Bolsonaro teria solicitado a um banqueiro a destinação de cerca de R$ 134 milhões para o filme 'Dark Horse', com pelo menos R$ 61 milhões liberados. Áudios divulgados indicam conversas sobre a necessidade de aporte financeiro para o filme antes da prisão do banqueiro no âmbito da Operação Compliance Zero.

Um dos áudios sugere que o senador expressou preocupação com o andamento do filme e a necessidade de pagamento de "parcelas para trás", indicando tensão entre os envolvidos.

Defesa de Mário Frias

O deputado Mário Frias, roteirista e produtor executivo do filme, declarou que o senador Flávio Bolsonaro não possui participação societária no filme ou na produtora Go Up Entertainment. Frias afirmou que a obra não recebeu "nem um único centavo" do Banco Master ou de Vorcaro, e que qualquer relação seria estritamente privada e sem envolvimento de dinheiro público.

Frias justificou os altos custos de produção do filme, comparando-o a "superproduções em padrão hollywoodiano" com capital 100% privado, atores e equipe de renome internacional, visando retratar o "maior líder político brasileiro do século XXI" como um negócio bem-sucedido para os investidores.

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista REG. PROF. FENAJ - 4407/PB | API/PB 3072