Na última quinta-feira (14), em São Paulo, o movimento Mães de Maio e organizações de direitos humanos lançaram a segunda etapa do Tribunal Popular. O objetivo é realizar um julgamento simbólico do Estado brasileiro pelos assassinatos ocorridos nos Crimes de Maio de 2006, denunciando a persistente violência policial e a falta de punição oficial após 20 anos dos episódios.

O evento de lançamento ocorreu na sede da OAB-SP, contando com a articulação da Conectas Direitos Humanos e da Iniciativa Negra. A proposta surge como uma resposta direta à ausência de mecanismos judiciais efetivos para punir os responsáveis pelas mortes ocorridas há duas décadas.

Segundo Gabriel de Carvalho Sampaio, diretor da Conectas, a iniciativa busca uma responsabilização popular diante do silêncio das vias institucionais. Para o advogado, o tribunal é um espaço de mobilização social essencial para reconhecer as falhas estatais e impulsionar novos processos de justiça.

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Embora não tenha caráter jurídico formal, o projeto pretende estabelecer diretrizes para enfrentar o extermínio de jovens negros e periféricos. O movimento acredita que o julgamento ético é um passo fundamental para a reparação coletiva das famílias atingidas pela letalidade do Estado.

Justiça popular e memória histórica

Camila Sabino, assessora da Conectas, explica que o foco é transformar as políticas que sustentam a violência institucional hoje. O Tribunal Popular quer ir além do sistema penal tradicional, pautando a ética e a preservação da memória das vítimas.

Para a especialista, as próprias instituições estatais muitas vezes funcionam como produtoras da violência que deveriam combater. Por esse motivo, a construção de uma justiça alternativa é vista como um marco necessário para dar visibilidade às vozes sistematicamente silenciadas.

Camila Torres, da Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP, reforça que a impunidade nos Crimes de Maio já dura 20 anos. Ela destaca que a maioria das vítimas pertence a grupos vulneráveis, que geralmente são ignorados ou menos assistidos pelo poder público.

A advogada aponta uma grave desigualdade na aplicação da cidadania no Brasil. Enquanto a legislação punitiva atinge com rigor a periferia, as garantias constitucionais parecem não alcançar as famílias que buscam respostas sobre a morte de seus filhos.

Cronograma e expansão das denúncias

Esta nova fase do tribunal sucede a primeira edição, realizada entre 2008 e 2009. O novo ciclo incluirá oitivas territoriais, seminários temáticos e articulações internacionais, com encerramento previsto para 2027, quando um dossiê final será apresentado.

Débora Maria da Silva, fundadora das Mães de Maio, enfatiza a necessidade de refletir sobre o agravamento da letalidade policial desde 2006. Para ela, o massacre original alimentou um ciclo de violência que segue expandindo-se de forma descontrolada nas favelas.

Além das execuções, o Tribunal Popular deve acolher denúncias sobre abusos no sistema prisional e questões de moradia. A intenção é mapear a violência estatal de forma abrangente, expondo como o atual modelo de segurança pública falha com a população.

O legado de sangue dos Crimes de Maio

Os episódios de 2006 começaram com ataques de uma facção criminosa, seguidos por uma retaliação estatal que vitimou mais de 500 pessoas em São Paulo. Relatórios universitários indicam que a vasta maioria dos mortos eram civis jovens e negros, com indícios de execução.

Gabriel Sampaio recorda que a Constituição Brasileira proíbe terminantemente a execução extrajudicial. Ele critica a constante criminalização das vítimas, uma prática que, segundo ele, apenas gera mais insegurança e fortalece grupos ilegais e milícias.

Para o advogado, o caminho trilhado pelo Estado gera um subproduto nocivo para as instituições. Quando a morte vira uma mercadoria aceitável, o Estado falha em sua missão de proteger, alimentando um sistema de impunidade que corrói a democracia.

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista REG. PROF. FENAJ - 4407/PB | API/PB 3072