Uma pesquisa recente do Projeto Confia, parte da iniciativa Pacto pela Democracia, revelou que a desinformação sobre as eleições no Brasil tem como principal alvo as urnas eletrônicas. O estudo, que analisou ciclos eleitorais recentes como 2022 e 2024, aponta que mais de 45% dos conteúdos falsos disseminados visam diretamente o funcionamento do sistema de votação eletrônico, buscando minar a confiança pública em sua integridade.

A divulgação desses dados coincide com a marca de 30 anos das urnas eletrônicas no Brasil, um período em que o sistema tem sido constantemente desafiado por narrativas falaciosas e ataques coordenados à sua credibilidade.

Além dos ataques às urnas eletrônicas, a pesquisa identificou outras categorias significativas de desinformação. Conteúdos direcionados ao Supremo Tribunal Federal (STF) e a outras autoridades representam 27,1% das narrativas falsas.

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Teorias de fraude na apuração dos votos somam 21,8%, enquanto a desinformação sobre regras e logística eleitoral atinge 15,4% do total analisado.

Exemplos clássicos de fake news sobre as urnas incluem alegações infundadas de um suposto atraso no botão "confirma" ou a falsa premissa de que o equipamento completaria automaticamente os números digitados pelo eleitor, manipulando o voto.

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Helena Salvador, coordenadora do Projeto Confia, explica que esses conteúdos desinformativos exploram de forma estratégica o desconhecimento técnico da população em relação ao funcionamento complexo do sistema eleitoral eletrônico.

"As narrativas falsas frequentemente se valem de explicações técnicas distorcidas para sugerir falhas e até mesmo possibilidades de manipulação do processo", detalha Salvador. "Elementos tangíveis da experiência de votação, como as teclas da urna e as mensagens que aparecem na tela, são propositalmente usados para criar estranhamento e fomentar dúvidas."

A coordenadora ressalta que a limitada interação da população com as urnas eletrônicas – que ocorre apenas a cada dois anos – aliada à falta de compreensão aprofundada sobre a tecnologia, cria um terreno fértil para a proliferação desses conteúdos enganosos.

"O acesso à urna é restrito ao dia da votação, a cada biênio. Essa periodicidade dificulta a checagem rápida de informações quando uma notícia falsa sobre um botão ou uma tecla específica é disseminada, deixando muitos eleitores vulneráveis à desinformação", esclarece Salvador.

O principal objetivo do estudo foi mapear as origens da desconfiança no processo eleitoral e, a partir disso, desenvolver estratégias eficazes de enfrentamento à desinformação, visando proteger a integridade das eleições de 2026.

"Nosso intuito era compreender quais pontos específicos geram descrença entre os eleitores quando o tema são as eleições", afirma. "O levantamento confirmou que a maior parte da desinformação se concentra nas urnas eletrônicas. Queremos estar preparados para 2026, com contra-narrativas robustas e capacidade de resposta ágil aos ataques contra o sistema eleitoral."

Para a realização do estudo, foram analisados mais de 3 mil conteúdos publicados durante os ciclos eleitorais de 2022 e 2024. Desse universo, 716 mensagens foram selecionadas para uma análise qualitativa aprofundada.

Os resultados indicam que 326 dessas mensagens, o equivalente a mais de 45% do total, continham ataques diretos e específicos às urnas eletrônicas, reforçando a centralidade desse equipamento nas estratégias de desinformação.

O Pacto pela Democracia, uma coalizão robusta com mais de 200 organizações da sociedade civil, desempenha um papel fundamental na defesa do Estado Democrático de Direito. Sua atuação abrange o monitoramento de ameaças à democracia e o combate ativo à desinformação eleitoral, sendo o Projeto Confia uma de suas vertentes.

A confiança nas urnas eletrônicas

Apesar dos esforços de desinformação, uma pesquisa Quaest divulgada em fevereiro deste ano revelou que 53% dos brasileiros ainda declaram confiar nas urnas eletrônicas. No entanto, esse índice representa uma queda significativa em comparação com 2022, quando um levantamento Datafolha, divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), indicava uma confiança de 82%.

A análise da confiança por faixa etária mostra que, entre indivíduos com 60 anos ou mais, 53% confiam no sistema. Os pesquisadores associam esse dado à memória do período pré-1996, quando o voto ainda era realizado em cédulas de papel.

Curiosamente, entre os jovens de 16 a 34 anos, a confiança nas urnas eletrônicas atinge um patamar ligeiramente superior, chegando a 57%.

O grupo etário de 35 a 50 anos, contudo, é o que demonstra maior ceticismo, com 50% afirmando não confiar nas urnas eletrônicas.

Helena Salvador enfatiza que as críticas às urnas vão além de simples desaprovações. "Não se trata apenas de dizer que as urnas são ruins; há explicações bastante sofisticadas circulando online, com o objetivo de persuadir as pessoas de que o sistema não funciona", observa.

Essa complexidade na desinformação reforça a urgência de tornar o processo de votação mais transparente e compreensível, desde o momento em que o eleitor digita seu voto até a totalização final.

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista REG. PROF. FENAJ - 4407/PB | API/PB 3072