O garimpo ilegal em terras indígenas Munduruku, no Pará, tem adotado novas estratégias: equipamentos menores e menos potentes substituem maquinários de grande porte. Essa adaptação surge como resposta à intensificação das ações de retirada de invasores em Terras Indígenas (TIs) sob o governo Lula. Longe de indicar uma retração, essa mudança técnica e operacional é uma tática para driblar a fiscalização e manter o alto faturamento, conforme revelado em um novo estudo.

A análise faz parte do relatório "O Circuito Espacial do Garimpo Ilegal no Pós-Desintrusão", divulgado pela Universidade do Estado do Pará (UEPA) em colaboração com o Instituto Mãe Crioula. Os Munduruku, juntamente com os Yanomami e Kayapó, figuram entre os grupos indígenas mais afetados pela atividade ilegal no Brasil.

O estudo também destaca a conexão entre o sistema financeiro que sustenta o garimpo e facções criminosas, conforme exposto em operações como a Carbono Oculto. Essa rede de apoio financeiro complexo, que envolve fundos de investimento e lavagem de dinheiro, eliminou as fronteiras entre o garimpo artesanal e a mineração industrial em larga escala.

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Mão de obra e redes de sustentação

A pesquisa investigou a origem da força de trabalho nos garimpos ilegais do Pará, predominantemente composta por maranhenses. Essa realidade consolida uma migração intrarregional iniciada nos anos 1990, onde trabalhadores alternam entre atividades agrícolas e o garimpo.

O estudo analisou as dinâmicas socioespaciais em municípios como Jacareacanga e Itaituba, lar da etnia Munduruku. Há anos, os indígenas denunciam as violações de direitos decorrentes da exploração de suas terras por não indígenas.

As redes econômicas que sustentam os garimpos se estendem para além de postos de combustíveis, aeronaves e embarcações. Pequenos comércios e prestadores de serviço locais são essenciais para a manutenção da atividade e, ao mesmo tempo, dependem dela. Fabiano Bringe, um dos autores do estudo, denomina essa relação de "minero-dependência".

A falta de alternativas de renda e sustento leva muitos indígenas a se envolverem na atividade, como evidenciado na formação do bairro dos Alagados em Jacareacanga. O município, às margens do rio Tapajós, tem uma forte presença Munduruku, com o sobrenome indígena sendo o mais comum na cidade. Os indígenas representam 59,1% dos habitantes, segundo o Censo de 2022 do IBGE.

"Há a desterritorialização deles, que vão para periferias próximas, conformando bairros precarizados como os que a gente costuma ver nas grandes e médias cidades, com condições de saneamento péssimas", ressalta Bringe.

Jovens indígenas também consideram o trabalho agrícola menos atraente em comparação com o garimpo. "A atividade no garimpo também é penosa. No entanto, a renda obtida é muito maior do que na agricultura, na pesca ou no artesanato", pondera o pesquisador.

O salário médio em Jacareacanga atingiu 2,6 salários mínimos em 2023, com 2.442 trabalhadores formais. Em 2010, quase metade da população (48,6%) vivia com renda mensal per capita de até meio salário mínimo.

Transformação econômica e ações de combate

A Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) registrou um aumento expressivo no número de caminhões em Jacareacanga, quase triplicando entre 2014 e 2023 (de 25 para 69). Caminhonetes e motocicletas também cresceram significativamente.

O PIB municipal disparou de R$ 177.489 para R$ 625.760 no mesmo período. O número de estabelecimentos comerciais com vínculo empregatício subiu de 10 para 34 entre 2010 e 2021, enquanto os de serviço saltaram de 6 para 14.

O governo federal intensificou ações de desintrusão para proteger os Munduruku. A Polícia Federal deflagrou a operação Munduruku Log em fevereiro de 2025, bloqueando R$ 24 milhões de suspeitos. Anteriormente, em dezembro de 2024, a operação Flygold II investigou um grupo que movimentou R$ 6 bilhões com o comércio ilegal de ouro.

O levantamento da UEPA, apoiado pelo Ministério dos Povos Indígenas e outras instâncias federais, abrange o período de 2017 a 2023.

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista REG. PROF. FENAJ - 4407/PB | API/PB 3072