O mundo da política pode ser cruel. Abraços escondem desconfortos, fotografias disfarçam divergências e declarações de fidelidade nem sempre sobrevivem ao fechamento das urnas.

O ex-governador Wilson Leite Braga costumava resumir essa realidade numa frase que atravessou gerações de políticos paraibanos: “O tempero da política é a traição”. A expressão permanece viva justamente porque continua encontrando exemplos nos bastidores eleitorais. 

Em Cajazeiras, um comentário restrito a pequenos grupos começa a circular com a força típica dos segredos que todo mundo cochicha, mas ninguém assume publicamente.

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A conversa é de que dois vereadores estariam exibindo no lado direito do peito o adesivo de determinado candidato a deputado estadual, enquanto soprariam nos ouvidos de pessoas próximas que o nome verdadeiramente guardado no coração localizado à esquerda seria outro.

É a velha política da duplicidade: um candidato para aparecer na fotografia e outro para receber o voto.

Adesivo não garante fidelidade

O adesivo é uma das manifestações mais tradicionais de apoio eleitoral. Colado na camisa, deveria sinalizar publicamente qual candidatura aquela liderança escolheu defender.

Mas, na política, nem sempre aquilo que aparece no peito corresponde ao que se movimenta nos bastidores.

Segundo os comentários que chegaram à coluna, os dois vereadores manteriam a aparência pública de fidelidade ao candidato estampado na roupa, enquanto orientariam parte de seus seguidores numa direção diferente.

Não há, até agora, elementos públicos que permitam identificar com segurança os parlamentares ou confirmar a existência de uma operação eleitoral organizada. Por responsabilidade, a coluna não apresentará nomes com base apenas em conversas de bastidores.

Isso, porém, não diminui a importância política do rumor.

Quando o adesivo serve apenas para a fotografia e o voto segue escondido no coração, o apoio deixa de ser compromisso e vira encenação eleitoral.

Quem está sendo enganado?

Se o comentário for verdadeiro, alguém está sendo traído.

Pode ser o candidato que acredita contar com a estrutura política dos vereadores. Pode ser o grupo que abriu espaço, dividiu palanque e entregou material de campanha. Pode ser a militância, que trabalha acreditando numa aliança inexistente. Ou pode ser o próprio eleitor, usado como peça numa negociação que desconhece.

A duplicidade permite ao político tentar permanecer bem com todos.

Publicamente, aparece ao lado de um candidato, participa dos eventos e posa para fotografias. Reservadamente, mantém outra candidatura aquecida e orienta seu círculo mais fiel a votar de forma diferente.

Se o candidato do adesivo vencer, o vereador mostra as fotos e reivindica participação. Se o candidato secreto obtiver bom resultado, apresenta os votos prometidos e cobra reconhecimento.

É o conhecido jogo de duas mãos ou, neste caso, de dois lados do peito.

Lealdade até a página dois

A eleição proporcional possui uma dinâmica própria. Vereadores dependem de relações locais, compromissos pessoais, estruturas partidárias e projetos futuros. Nem sempre o apoio oficial coincide com a preferência individual.

Isso pode acontecer e faz parte da política.

O problema surge quando a divergência é escondida e substituída por uma fidelidade cenográfica. Se um vereador prefere outro candidato, tem o direito político de assumir sua escolha. O que não combina com transparência é usar a imagem de um nome e trabalhar silenciosamente pelo adversário.

Lealdade política não significa submissão. Significa clareza.

Quem deseja mudar de lado pode fazê-lo, desde que tenha coragem para comunicar sua decisão ao grupo, ao candidato e aos próprios eleitores.

As urnas costumam revelar tudo

Durante a campanha, é possível controlar discursos, esconder reuniões e distribuir sorrisos estratégicos. Depois da votação, entretanto, os números começam a desmontar versões.

A apuração por zonas e seções eleitorais permite comparar expectativas, bases políticas e resultados alcançados. Quando uma liderança promete determinada quantidade de votos e entrega muito menos, as suspeitas aparecem rapidamente.

É nesse momento que o adesivo perde valor e o voto revela onde realmente estava o coração.

Talvez os rumores não passem de intriga eleitoral — algo igualmente comum em Cajazeiras. Talvez exista apenas uma insatisfação isolada, sem qualquer movimento organizado. Ou talvez dois vereadores estejam, de fato, ensaiando uma traição silenciosa.

A confirmação poderá vir com declarações, movimentos públicos ou, simplesmente, pelos números das urnas.

Por enquanto, ficam as perguntas: quem são os vereadores? Qual candidato aparece no adesivo? E qual nome está escondido no coração?

Eita mundão de Deus!

Cajazeiras não é necessariamente uma cidade diferente. Apenas possui um talento especial para transformar cada eleição numa novela em que o abraço é público, o voto é secreto e a traição pode estar colada no próprio peito.

Instagram oficial:
@wgleyssondesouza

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista. REG. PROF. FENAJ 4407/PB | API/PB 3072