No Brasil, o crescente endividamento das famílias tem sido intensificado pela combinação de uma elevada taxa Selic e os significativos spreads bancários aplicados pelas instituições financeiras, resultando no recente lançamento do programa Novo Desenrola pelo governo federal. Economistas apontam que essa conjuntura de juros altos dificulta o acesso ao crédito e compromete a saúde financeira dos lares, motivando a iniciativa governamental para renegociação de dívidas.

O spread bancário representa a diferença entre o custo de captação de recursos pelos bancos e as taxas de juros cobradas dos consumidores. Em março, esse indicador atingiu 34,6 pontos percentuais (p.p.) no Brasil, um aumento notável em comparação aos 29,7 p.p. registrados no mesmo período do ano anterior.

Para contextualizar, o Banco Mundial estima que a média global do spread bancário gire em torno de 6 p.p., evidenciando a particularidade do cenário brasileiro.

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A professora de economia da Universidade de Brasília (UnB), Maria Lourdes Mollo, esclarece que existe uma correlação direta: quanto mais alta a taxa Selic definida pelo Banco Central (BC), maiores são as taxas de juros que os bancos aplicam aos empréstimos concedidos às famílias.

“Os juros dos empréstimos estão em patamares muito elevados, o que, sem dúvida, impacta diretamente o endividamento das pessoas e dificulta significativamente o funcionamento da economia”, observou Maria de Lourdes.

A professora da UnB também mencionou a precarização dos empregos no Brasil, atribuída à reforma trabalhista implementada durante o governo de Michel Temer, como um fator agravante para a situação financeira das famílias.

“Muitas pessoas estão se endividando para complementar o orçamento doméstico, cobrir despesas de saúde e o custo de vida diário. O Novo Desenrola pode aliviar o orçamento dessas famílias e, eventualmente, injetar um estímulo na economia”, acrescentou Maria Lourdes.

Com uma taxa de juros reais de 9,3% (descontada a inflação), o Brasil ocupa a segunda posição global, superado apenas pela Rússia (9,6%), um país em conflito. O México surge em terceiro, com 5,0%, conforme dados do site especializado Moneyou.

Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), a taxa Selic foi ajustada para 14,5%, com uma redução de 0,25 p.p., patamar ainda considerado elevado. Enquanto o BC defende a necessidade dessa taxa para controlar a inflação, críticos argumentam que ela permanece excessivamente alta.

A escalada do endividamento das famílias

Pelo quarto mês consecutivo, o número de famílias com dívidas no Brasil atingiu um novo recorde histórico em abril, alcançando 80%, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O índice de famílias inadimplentes, com contas em atraso, manteve-se relativamente estável em 29,7%.

A CNC ressalta que as famílias com renda de até três salários mínimos são as mais afetadas, registrando o maior nível de endividamento (83,6%) e o índice mais elevado de contas em atraso (38,2%).

Liderança global no spread bancário

Para a professora de economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Juliane Furno, o elevado spread bancário é um fator crucial para explicar o expressivo endividamento das famílias brasileiras.

“O Brasil se destaca globalmente com um dos maiores spreads bancários, frequentemente no topo dos rankings. Embora os bancos justifiquem esse valor pelo alto risco de inadimplência, é igualmente válido argumentar que a inadimplência é elevada justamente porque os juros (spread) são exorbitantes”, pondera Juliana.

Dados de 2024 da World Open Data confirmam o Brasil como o país com as maiores taxas de spread do planeta, à frente de nações como República Tcheca, Sudão do Sul, Serra Leoa, Moçambique, Angola, Ucrânia e Timor Leste.

Relatórios do Banco Central de março indicam que a taxa de juros média cobrada dos indivíduos (famílias) pelos bancos foi de 61% ao ano, enquanto para as empresas, a média ficou em 24%.

Maria Mello de Malta, professora de economia política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), salienta que a posição do Brasil como o segundo país com a maior taxa básica de juros do mundo impulsiona os bancos a elevarem suas taxas para a população.

“Quando a taxa Selic está alta, todas as outras taxas de juros seguem um patamar elevado. Se um trabalhador não consegue honrar o pagamento de um empréstimo ou do cartão de crédito, os juros aplicados serão ainda maiores que a Selic”, explicou Maria à Agência Brasil.

Malta complementa que essa dinâmica cria um “efeito bola de neve”, onde as famílias trabalhadoras buscam novas fontes de crédito para quitar dívidas anteriores, mergulhando em um ciclo progressivo de endividamento.

Os juros mais exorbitantes no Brasil são os do rotativo do cartão de crédito, que podem ultrapassar 400% ao ano.

O programa Novo Desenrola

O governo federal instituiu o Novo Desenrola Brasil, uma iniciativa destinada a auxiliar famílias, estudantes e pequenos empreendedores na renegociação de dívidas, na regularização de seus nomes e na recuperação do acesso ao crédito.

Esta nova fase do programa, com duração de 90 dias, oferece descontos de até 90%, juros reduzidos e a possibilidade de utilizar o FGTS para abater débitos.

FONTE/CRÉDITOS: WGLEYSSON DE SOUZA – Jornalista REG. PROF. FENAJ - 4407/PB | API/PB 3072